Lendo e revendo as reportagens do Jornal da Cidade que tiveram início devido à pichação da Escola Ernesto Monte, algo me inquietou. Fui à internet pesquisar sobre o assunto e encontrei vários sites que falam sobre o ato de pichar. Encontrei muita coisa divergente, interessante, mas o que converge em todos os sites visitados é a questão que também me pega: por que os jovens fazem isso? Por que jovens que geralmente moram na periferia promovem encontros, escalam muros e prédios para deixar lá marcas que poluem visualmente a cidade?
O que se lê nas reportagens é a necessidade de uma fiscalização maior, mais eficiente; como se resolvendo a ação com coerção, resolvêssemos o problema. Ainda demonstram pelas reportagens que através da “educação pelo medo” conseguirão bons resultados. Em uma entrevista, um militar diz que através de cursos estão esclarecendo que pichar é crime e que quem for pego no ato será punido.
O que me impressiona é que falamos sobre as ações, sobre as punições, mas ninguém questiona sobre os porquês.
Ao visitar o site da Wikipédia, li num trecho sobre o assunto: quando feita em locais proibidos, a pichação adquire caráter transgressivo e pode ter como objetivo a demarcação de territórios entre grupos, às vezes gangues rivais.
É a escola vista como lugar proibido?Por que estes jovens vão até às escolas pichar? O que os faz tão agressivos?
Sendo a escola uma instituição representativa da sociedade, traz nela muito forte a reprodução do social e sem demora, ao nos atermos neste assunto, vamos encontrar as respostas nas diferenças econômicas produzidas pelo capitalismo, o desejo de consumo exagerado, o fato de sentir-se fora deste meio e das possibilidades de consumir e ainda o desejo de protestar contra a ordem social posta.
Tem como se reduzir estas ações? Dissipar a pichação?
Conheço escolas que conseguem conviver com o problema social (porque não o vencemos a não ser em sociedade), ao deixar a postura autoritária no lidar com os jovens e ouvi-los em suas reinvindicações.
Conheço escolas cujas famílias e vizinhos cuidam da escolas como parte da comunidade. Eu conheço dirigentes escolares que são protegidos pelos alunos, pais e comunidade, porque abrem a escola para as famílias como local de cultura, lazer e encontros. Local este onde são respeitados e por conseguinte, respeitam.
O que não vi nas reportagens escritas e televisionadas foi as escolas e a sociedade pensando em possíveis modificações de suas ações no sentido de entender as razões desta violência simbólica e procurar desfazer esta distância que se instalou entre a escola, alunos e comunidade. Não vi ações voltadas para juntar os jovens e ouvi-los...não percebo a escola se achando devedora à sociedade. Afinal, educação é uma via de mão dupla. Algo vai mal nesta relação e não é de um único lado. Enquanto não olharmos a realidade em sua dialética, estaremos tapando o sol com peneira.
Ainda de minhas andanças pela intenet do site pichação.com Evitando nesse momento qualquer tipo de apologia à pichação, é importante que se perceba o fenômeno de forma imparcial para notar que a pichação, apesar de ser uma atividade ilegal, é um movimento independente que os indivíduos atuam de forma a construir e decidir conscientemente as suas ações. O pichador propõe um novo significado para o local, ele transforma a cidade com suas escrituras.
Que tal decifrarmos seus escritos? Que tal interpretarmos seus sonhos? Que tal humanizarmos Bauru iniciando por suas escolas?
A autora, Leila Fernandes Arruda, é pedagoga e mestra em Assentamentos Humanos, professora do Iesb/Preve - e-mail: leila.arruda@yahoo.com.br