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Viver em sociedade implica em renúncias

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 2 min

Para que exista um mínimo de organização social, é preciso que as pessoas renunciem a alguns desejos. Nem tudo é possível.

É sabido, por exemplo, que ferir alguém é inaceitável perante a sociedade. Embora todas as pessoas saibam disso, o impulso e o desejo de ferir alguém que nos feriu ou que feriu alguém que amamos vem à tona. Não concretizar esse desejo implica em renúncia.

Na sociedade em que vivemos atualmente, renunciar em favor do bem da coletividade é algo bem distante da realidade. O que se vê são as pessoas brigando em causa própria, nem que para isso seja preciso ferir, muitas vezes mortalmente, o semelhante. Parece que as pessoas não aceitam mais receber um “não” como resposta.

Foi por causa de um “não” que Lindemberg Fernandes Alves, 22 anos, matou a adolescente Eloá Cristina Pimentel, 15 anos. Foi por causa de um “não” que muitos outros crimes foram e são cometidos. É o desejo particular em primeiro lugar.

“Parece que estamos vivendo em um momento histórico onde existe um imperativo de prazer. Devemos sempre produzir, ser belos, felizes, completos”, observa a psicóloga Cassia Yuri Asano.

Segundo ela, essa preocupação em atender o prazer pessoal faz com que as pessoas se esqueçam que um tanto de tristeza faz parte da vida, que todos têm limites que devem ser respeitados e que o “não” precisa ser aceito com mais naturalidade.

A psicanalista Luciana Guareschi afirma que muitos dos crimes passionais acontecem porque as pessoas querem ser amadas de um jeito que não é possível na vida real. A vontade é de controlar o outro, a ponto de saber até quais são seus pensamentos.

“É aí que os problemas começam, pois o fato de sermos amados de maneira diferente do que imaginaríamos e quereríamos é sentido como insuportável. Assim como também é insuportável a certeza de que os outros são diferentes de nós, tendo vida própria e sua própria maneira de desejar e amar, sendo impossível fundir-se com o outro.”

E então, a ameaça, real ou imaginária, de perder o objeto amado desencadeia uma angústia avassaladora que, freqüentemente, exprime-se por ciúmes patológicos e por ações que podem chegar à violência. Pelo que mostrou de si durante o seqüestro, Lindemberg parece fazer parte desse grupo de indivíduos, segundo análise de Luciana.

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