Gastronomia

Nos Velórios das Gerais

Eliane Barbosa
| Tempo de leitura: 10 min

Dia de Finados. Dia consagrado aos mortos. Aos nossos entes queridos que continuam morando no fundo do nosso coração. Embora a morte seja uma coisa extremamente triste, a cerimônia que precede o enterro, em algumas casas, pode ser hilária. Pelo menos, é o que garante a escritora e cozinheira mineira, de Uberaba, Déa Rodrigues da Cunha Rocha, que acaba de lançar “Os Comes e Bebes nos Velórios das Gerais e outras histórias – Um livro de receitas ou uma receita para darmos boas risadas?”, pela Auana Editora.

O livro faz um revival dos velórios de Minas que nada tem a ver com os atuais, chiques, dos centros velatórios, onde há até cantina 24 horas.

Déa, no alto dos seus 76 anos, é também cozinheira de mão cheia e tem um caminhão de bom humor. Reuniu tudo isso nesse livro de digestível leitura. A idéia, de início, era levantar uma série de receitas tradicionais que, pouco a pouco, estão caindo no esquecimento, mas que faziam o cotidiano mineiro das fazendas mais saboroso. Aos poucos, Déa foi percebendo outra faceta nos conteúdos pesquisados: misturadas às quitandas, uma infinidade de histórias engraçadas de velórios.

“A mistura pode parecer exdrúxula, talvez até desrespeitosa, mas espelha a realidade do interior mineiro, rico de humor e singeleza”, conta Déa. “São histórias verdadeiras, acontecidas de fato e a mim relatadas por várias pessoas, com especial ajuda dos amigos da região centro-oeste do Estado”.

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Cueca virada

Ingredientes

1 copo de óleo

2 ovos

1 pitada de sal

1 copo de leite morno

6 colheres de açúcar

2 colheres de fermento em pó

1 kg de farinha de trigo

Modo de fazer: Amasse tudo e deixe a massa descansar. Depois faça as cuecas. Corte retângulos de 10 por 6 cm, e dê um talho de 2 cm bem no meio na massa, no sentido do comprimento. Puxe as duas ponta superiores e passe por esta abertura. Deixe descansar novamente. Em seguida frite em óleo quente e passe no açúcar refinado com canela.

Biscoito calcanhar de negro

Ingredientes

1 prato fundo de polvilho doce

Meio prato (pelo friso) de água

Meio prato (pelo friso) de gordura de porco ou óleo

11 ovos

Sal necessário

Modo de fazer: Escaldar o polvilho com a gordura (ou óleo) e água. Amassar bem até a massa ficar fina. Em seguida, colocar os ovos e o sal. Amassar novamente até que fique tudo bem misturado e no ponto. Colocar a massa no pano e espremer. Fazer os biscoitos pequenos porque eles crescem muito. Em seguida, levar ao forno quente, mas não exageradamente quente. Ideal para uma matula*. * Matula: lanche.

Biscoito cascudo

Ingredientes

750 gramas de polvilho doce

¾ de xícara de leite cru e frio

Uma xícara e meia de óleo ou gordura de porco

5 colheres de sopa de açúcar

Uma colher de sopa de sal

6 ovos

Modo de fazer: Umedecer o polvilho com o leite. O leite deve ser cru e frio, temperatura natural. Usando as mãos, misturar desmanchando possíveis bolinhas. É uma parte trabalhosa. Leva-se pelo menos 40 minutos trabalhando o polvilho umedecido. Para ver se está no ponto, coloca-se um pouco na palma da mão e aperta-se. Se formar um canudo mais ou menos firme, pode-se continuar a receita.

Por no fogo o óleo, ou gordura de porco. Deixar esquentar ao máximo e escaldar o polvilho umedecido. Mexer a massa bem e rapidamente. Misturar o açúcar e o sal. Amassar até que fique quase fria. Coloca-se então os ovos, um a um, amassando com as mãos. Esta receita gasta 6 ovos, dependendo do tamanho. O ovo caipira é menor e talvez gaste mais.

A massa não deve ficar mole, pois este biscoito é enrolado na mão untada de óleo. O formato clássico é um meio círculo. Forno muito quente. O forno ideal é o do fogão de quatro bocas. O forno grande é um desastre, pois o calor não fica concentrado. O biscoito cascudo cresce bastante. Ele é um dos mais saborosos, mas é difícil de fazer. O ideal é fazer pela primeira vez com uma pessoa experiente. O problema é o “ponto”. Só vendo para se fazer bem.

Ovos queimados

Ingredientes

6 ovos

6 colheres de queijo ralado (curado)

Açúcar

Água

Modo de fazer: Bater 6 claras em neve. Colocar as gemas e continuar batendo. Misturar 6 colheres de queijo ralado curado. À parte, fazer uma calda grossa. Colocar os ovos e uma xícara de calda queimada e deixar cozinhar. Tirar de vez em quando. Os ovos empelotam e ficam amarronzados. Deixe cozinhar até não sentir o cheiro de ovo cru. Servir frio. Dura muito tempo na geladeira. Não deixar a calda engrossar muito.

Pão de Caxambu

Ingredientes

1 quilo de farinha de trigo

4 colheres de sopa de fermento Fleishman

5 ovos inteiros

1 xícara e meia de óleo ou manteiga derretida

1 xícara e meia de açúcar

1 xícara e meia de água morna

Modo de fazer: Retira-se 250 gramas de farinha, mistura-se ao fermento e 1 xícara e meia de água morna. Deixa-se crescer coberto com um pano. Mistura-se depois o resto da farinha, os ovos inteiros, o óleo (ou a manteiga derretida) e o açúcar. Sovar bem.

Fazer os pães de tamanho pequeno. Com 20 centímetros no máximo dá pra 8 pães. Colocar nas formas e deixar crescer. Cobrir com um pano. Quando dobrar de volume, levar ao forno quente. Assa bem rápido.

Ainda quente, untar com manteiga derretida e polvilhar com açúcar e canela. Este pão era muito usado nas fazendas, pois guardado em latas tinha grande duração.

Rosquinhas fritas

Ingredientes

4 ovos

8 colheres de açúcar refinado

1 colher de sopa de pinga

1 colher de sopa de manteiga

Farinha de trigo

Modo de fazer: Juntar todos os ingredientes e ir acrescentando a farinha de trigo até a massa dar ponto para enrolar as rosquinhas. Fritar e passar logo em açúcar refinado e canela em pó.

Pau-a-pique

Ingredientes

3 xícaras de chá de caldo de cana coado (garapa)

3 xícaras de chá de açúcar

7 xícaras de chá de fubá peneirado

1 xícara de chá de óleo

1 xícara de chá de manteiga

2 xícaras de chá de leite

1 colher de chá de sal

1 colher e meia de sopa de bicarbonato de sódio

5 ovos

Erva-doce e cravo-da-índia a gosto

Folhas novas de bananeira lavadas para enrolar as broas

Modo de fazer: Colocar numa panela a garapa, o açúcar, o óleo, o cravo, a canela e o leite e levar ao fogo para ferver. Retirar do fogo, deixar esfriar e acrescentar o fubá e a farinha de trigo misturando muito bem para não empelotar. Levar novamente ao fogo para cozinhar, mexendo sempre para não agarrar no fundo da panela. Após esfriar, bater os ovos, acrescentar o sal e o bicarbonato e despejar sobre a massa já preparada, misturando muito bem. Colocar a massa sobre a folha de bananeira e dobrar as pontas. Fazer canudos. Assar em forno quente. Demora mais ou menos uma hora para ficar pronto.

Broa de massa de queijo

Ingredientes

Massa de um queijo de 1 kg sem soro

12 ovos

Meio prato raso de açúcar

Fubá de canjica

Uma colher de margarina

Modo de fazer: Espremer a massa de queijo para tirar todo o soro. Acrescentar os ovos, o açúcar e a margarina. Acabe de amassar acrescentando o fubá de canjica. Fazer as broas, passando-as no fubá. Asse em forno quente. A massa de um quilo de queijo equivale a 10 litros de leite coalhado e espremido.

Amor em pedaços

Ingredientes

1 abacaxi ralado

1 coco ralado

1 colher de manteiga

3 xícaras de açúcar refinado

3 gemas

Modo de fazer: Misturar bem todos os ingredientes. Levar ao fogo. Mexer até ver o fundo da panela. Deixar esfriar. Fazer bolinhas e passar no açúcar cristal.

Pão de queijo do Sul de Minas

Ingredientes

5 batatas pequenas cozidas e espremidas

1 kg de polvilho azedo

4 ovos

½ kg de queijo ralado

½ litro de leite

1 copo de óleo (requeijão)

1 colher de sopa de sal

Modo de fazer: A maneira de fazer é igual às outras. Se for usado para aperitivo, põe-se orégano ou recheia-se com um pedaço pequeno de roquefort. Esta receita é deliciosa e pode ser feita bem antes da hora, pois não murcham. Mas não se fazem bolinhas grandes. Alguns, mais extravagantes, colocam goiabada ou doce de leite como recheio, mas esse não é o melhor pão de queijo. Entre o industrial e o doméstico há uma enorme diferença de sabor e leveza.

Licor de Indaiá

Ingredientes

5 garrafas de pinga

20 cocos de indaiá cascados

3 quilos de açúcar em calda

Modo de fazer: Misturar tudo e deixar em infusão por dez dias. Depois basta filtrar. Indaiá é uma palmeira nativa de Minas. Possivelmente está em vias de extinção, pois foi impossível conseguir seus cocos para fazer a beberagem. A receita vale como curiosidade.

Caldo de feijão

Ingredientes

1 kg de feijão

Tempero a gosto

Modo de fazer: Deixar o feijão de molho um dia antes. Cozinhar bem em panela comum. Ele deve ir cozinhando devagar, e não na pressão. Cozido, tempera-se a gosto sem amassar o feijão nem bater no liquidificador. O caldo aparece naturalmente. O caldo não é aquele grosso e liquidificado. O caldo se forma naturalmente no fogo brando. É mais ralo e sem os resíduos do feijão que passou pelo liquidificador. O rendimento é pequeno, já que o feijão não é amassado. O caldo de feijão é muito usado para acompanhar uma pinga. Deve ser servido em copinhos de cerâmica e bem quente. O original é meio difícil de se fazer em fogão comum. O ideal é o fogão a lenha.

Lombo de porco com mandioca e queijo

Ingredientes

Um lombo de porco

Uma boa porção de mandioca

Manteiga comum

Queijo mineiro

Modo de fazer: Faz-se um lombo na panela e não no forno. Cozinha-se a mandioca, tira-se o fio, e colocam-se pedaços grandes numa travessa que possa ir ao forno. Cobre-se a mandioca com manteiga comum, polvilha-se com bastante queijo mineiro e leva-se ao forno. Sirva bem quente com arroz feito no açafrão.

Lombo de porco com abacaxi

Ingredientes

Lombo

Abacaxi

Tempero a gosto

Modo de fazer: Um lombo bem temperado. Levar ao fogo numa panela grande. Vai-se pingando água para cozinhar sem ressecar. Deve ser cozido em panela tampada. Quando estiver cozido, deixar corar dos dois lados. Parte-se um abacaxi em quadrados grandes, sem o miolo, e mistura-se ao lombo. O abacaxi mais azedo fica melhor. Servir com arroz e farofa de farinha de mandioca.

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O dia em que vovó resolveu morrer

- O quê? Vovó Olívia morreu de repente?

- Sim, agorinha. Avise a família e chame seu pai, ele está na prefeitura. Temos um sério problema. Sua avó morreu na hora errada.

A mãe se descabelava com a morte da sogra. O neto estranhou tanto desespero, o que não é comum em caso de morte de sogra. O pai chegou e viu-se que a aflição da nora tinha outra razão.

- Augusto, eu sempre lhe pedi para comprar um túmulo chique para a sua mãe. O que vão dizer? Vai ser um vexame para ela que lhe ajudou tanto na política. Cova rasa... E agora? Já mandei encomendar os salgados da Mariquinha, que são os melhores, e os doces. Por sorte, a família de um defunto da cidade vizinha não veio buscar uma encomenda e eu fiquei com todos. E você, Augusto, o que vai fazer? Tanta comida fina e sua mãe na cova rasa.

Estabeleceu-se a confusão. Nesse ínterim, chegou primo Renato, que, sempre solícito, lembrou do túmulo da sua avó e se propôs a emprestá-lo.

O jazigo era bem localizado no cemitério, perto de um antigo prefeito e de uma senhora famosa pela caridade. Foi a salvação. O neto, que tudo observava, e nos seus 10 anos não entendia muito do assunto, interrogou:

- Eu nunca ouvi dizer que se empresta túmulo...

- Empresta sim, meu filho, disse a mãe já aliviada. Assim dá tempo de seu avô comprar um terreno e fazer um túmulo para a vovó.

O enterro foi um sucesso. O túmulo era imponente e foi superelogiado, e mais ainda os comes e bebes. Não se podia esperar nada diferente na casa do prefeito. Cinco anos depois, vovó foi transferida sem alarde para uma morada mais simples e definitiva.

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