Após 13 horas em greve de fome, a funcionária pública Andreia Almeida Ortolani terminou, temporariamente, o protesto ao não-cumprimento da decisão judicial que determinou tratamento médico e terapêutico em casa a seu pai, o eletricista e encanador autônomo João Alves de Almeida. Às 13h de ontem, por intermédio de Fabrício Carrer, procurador da República em Bauru, o Departamento Regional de Saúde (DRS 6) liberou os medicamentos necessários ao tratamento de Almeida, que em julho foi vítima de um acidente vascular cerebral (AVC).
Apesar da conquista dos medicamentos, o paciente continua sem o tratamento em casa (home care) imposto por uma liminar assinada pelo juiz Roberto Lemos dos Santos Filho, da 1ª Vara Federal. “Não posso continuar em greve de fome porque ajudo a sustentar minha família, além de custear todos os medicamentos de meu pai. Consegui os medicamentos, agora aguardo o tratamento que foi prometido. Se a decisão judicial não for cumprida, volto com o meu protesto”, afirma Andreia.
A primeira decisão, estabelecida no dia 3 de outubro deste ano, determinou que a União Federal e a Fazenda Pública do Estado de São Paulo teriam 72 horas para providenciar e oferecer o tratamento necessário. Após um mês, as imposições ainda não tinham sido cumpridas e não houve registro de recurso contra a liminar.
Uma segunda decisão, do dia 4 de novembro, estabeleceu o prazo de 48 horas para os órgãos comprovarem o cumprimento da medida. Caso não fosse acatada, a União e o Estado deveriam pagar multa diária de R$ 10 mil.
De acordo com Andreia, seu pai recebeu atendimento home care por alguns dias, mas desde a semana passada está sem tratamento. O médico da empresa que realizava o tratamento na casa de Almeida, alega que seus serviços foram dispensados pela própria família. “O que é uma mentira. Por isso, o meu advogado está entrando com um pedido para quebrar o sigilo telefônico da minha casa para ver que a informação é irreal”, afirma.
Após sofrer o AVC, Almeida permaneceu dois meses internado, ficou tetraplégico, respira por uma intercepção na traquéia e está com escaras que têm até cinco centímetros de profundidade.
____________________
Quem é Andreia?
Funcionária pública há 20 anos e casada há seis, Andreia Almeida Ortolani virou notícia no início deste mês quando iniciou uma luta em busca de tratamento médico ao seu pai, João Alves de Almeida, vítima de um acidente vascular cerebral (AVC). Na manhã de segunda-feira, surpreendeu ao iniciar uma greve de fome em protesto ao não-cumprimento, por parte da União Federal e da Fazenda Pública do Estado de São Paulo, da decisão judicial que determinou tratamento médico e terapêutico necessário a Almeida.
Andreia se instalou na frente do prédio do Ministério Público Federal com cartazes de protesto e de apelo aos médicos e profissionais da saúde de Bauru.
JC - Qual sua profissão?
Andreia Almeida Ortolani - Sou funcionária pública há 20 anos. Tenho formação em técnico em edificações e sou funcionária da Secretaria de Planejamento, mas atualmente atuo no gabinete do prefeito. Há quatro anos voltei a estudar e faço arquitetura.
JC - Como começou a luta pelo tratamento de seu pai?
Andreia - Quando recebemos a notícia, uma irmã desmaiou, a outra ficou em estado de choque e minha mãe só chorava. Então, tive que ser forte. Todas as explicações dadas pelos hospitais eram superficiais e não eram convincentes, então, resolvi estudar. Fui até a biblioteca da faculdade e comecei a ler livros da área da saúde para entender de fato o que havia acontecido com meu pai. Além disso, pesquisei muito na Internet e todas as vezes que meu pai tinha consultas médicas eu comparecia e questionava os médicos. Foi a partir daí que tive noção da gravidade do caso. Quando meu pai recebeu alta, fiquei desesperada porque tinha que comprar muitas coisas e adaptar a casa, pois meu pai estava tetraplégico e respirando por uma intercepção na traquéia. Diante da situação, procurei a Comissão de Direitos Humanos e eles me deram uma carta para procurar um advogado na Defensoria Pública, mas eles estavam em greve. Por meio de uma amiga, cheguei ao doutor Faissal Rasik Saab, que realmente não me cobrou nada, fez toda a documentação e conseguiu a liminar a nosso favor.
JC - Por que resolveu expor o caso de sua família?
Andreia - Como não houve o cumprimento da decisão judicial, resolvi convocar a mídia porque eu sei que houve um erro, só não sei se foi erro do hospital, do médico ou nosso erro mesmo quando deixamos o meu pai ir sozinho ao hospital, mas não quero provar esse erro, essa parte eu vou deixar para a Justiça. O que me importa é a vida de meu pai. Além de conseguir o tratamento para ele, por meio desta atitude tento sensibilizar a população. Neste período, eu encontrei muita gente doente e os cidadãos não sabem reclamar os seus direitos.
JC - Como surgiu a idéia da greve de fome?
Andreia - Foi uma atitude desesperada, após a última complicação que meu pai teve. Sofri para conseguir uma sonda aspirante para ele e só consegui por intermédio da fisioterapeuta que pagamos e presta serviço em casa. Optei por ficar em frente ao Ministério Público porque o papel da Justiça Federal eu já tinha, tive total apoio do juiz, que entendeu o meu caso, então precisava de outro órgão fiscalizador para me ajudar. Usei a toca, a máscara e as luvas em alusão a um médico, pois preciso deste profissional, e usei preto em protesto ao descaso da União e do Estado. Dei início à greve de fome em silêncio, pois minha mãe e minhas irmãs precisavam cuidar do meu pai e não mereciam outra preocupação. Os cartazes, fiz após pesquisas e pedi apoio da área da saúde.