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Ensaio sobre a morte


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Saber que o fim era inevitável foi um grande baque. Não me agrada falar, mas as lembranças ainda latejam em minha mente e compartilhá-las é uma dádiva. Mesmo sem precisar a horrível sensação, lembro da mistura de medo, frustração e desencanto. Ninguém até então, por pura proteção, havia me contado que morrer era apenas uma questão de tempo. Relutei em acreditar, embora desconfiasse.

Desenganado, perdi a firmeza e ganhei uma certeza: todos os sons, imagens e cheiros que magicamente descobri não eram mais para sempre. A morte deixava de habitar a fantasia de criança, como a toalha nas costas que me fazia um super-homem, para entrar no terreno finito das verdades. Talvez umas das poucas que a vida nos brinda. De resto, das mais extremas alegria ou tristeza, tudo é relativo.

Como compensação, enfim, veio a boa notícia: existe o céu! Depois, outra decepção, “mas também o inferno”. Ao ver a agonia do primeiro bicho morto com a nobre, porém atrasada missão de ser alimento para a vida, refleti: o inferno talvez seja aqui. Quando percebi que usamos de tantas outras nobres desculpas para fazer tantas outras podres besteiras, passei a acreditar que poderia estar certo.

Assim, mais que a duração ou a condição da vida, ou o que nos espera a seguir, o que parece valer é o que praticamos nesta fulgaz permanência. Para alguns a vida se traduz na busca de sucesso, fama e grana; para outros é a conquista de conforto, paz e felicidade e para muitos, ainda, sobreviver já é uma vitória. Mas é preciso mais! Muito mais! Não porque somos eternos insatisfeitos, mas porque neste planeta somos tão muito e fazemos tão pouco... e tão mal.

Hannah Jones é uma inglesinha de 13 anos que chocou o mundo com a notícia de que queria morrer. Com leucemia e um problema cardíaco irreverssível, ao recusar um transplante de coração soube traduzir o quanto são importantes nossas atitudes. Bombardeada por quimioterapia, com quase uma dúzia de cirurgias e farta de hospitais, disse não. Ao contrário do que o senso comum pode nos conduzir ou as manchetes nos revelar, ela não quer morrer. Apenas fez uma escolha sobre como continuar vivendo. A surpresa é que sua dignidade chacoalhou a nossas certezas estabelecidas. A decisão poderá deixá-la viva por mais um dia ou um século, não importa. Hannah já fez mais do que muitos de nós.

O autor, Luís Victorelli, é jornalista - e-mail: lvbauru@gmail.com

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