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Homem vive relação ambígua com bichos

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 2 min

Uma mão afaga, enquanto a outra mata para comer. Assim poderia ser resumida a relação que o ser humano desenvolveu com os animais ao longo dos milênios. “Para se entender como tal, o homem tem de categorizar. Quando nos olhamos e dizemos ‘sou humano’, necessariamente estamos criando uma hierarquia. Podemos, então, dispor do meio ambiente da maneira como bem entendemos, porque a natureza é pródiga e aparenta se regenerar com facilidade.

Nesse processo, acabamos nos aproximando de certos animais e nos tornamos amigos deles. Mas essa situação é ambígua pois, embora amemos os bichos, precisamos nos alimentar”, analisa o antropólogo Cláudio Bertolli Filho, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru.

Próximo de alguns, distante de outros - dificilmente o homem se alimenta das criaturas que cria como animal de estimação (e muito menos aqueles elevados à condição de seres sagrados). “Nos Estados Unidos não se come carne de cavalo, de jeito nenhum, e na Índia as pessoas morrem de fome mas não matam vacas”, lembra.

Segundo o professor, a razão simbólica operaria em favor da gula humana, no sentido de justificar a morte dos animais. “Transformamos os bichos em ‘coisas’ e dessa forma podemos comê-los sem peso na consciência”, diz Bertolli, que afirma amar os animais e ao mesmo tempo adorar carne.

“Vivo essa ambigüidade no dia-a-dia”, admite. De acordo com ele, a existência de locais apropriados para o abate facilitaria esse processo. “A cultura cria meios que nos permite passar sem sofrimento pelas experiências traumáticas. Transferimos a morte para ambientes assépticos - os frigoríficos para os animais, os hospitais para os humanos -, onde ela é mantida escondida”, diz.

Meio ambiente

Há tempos os vegetarianos, ecologistas e defensores dos animais tentam colocar os frigoríficos e abatedouros na berlinda. Além da questão do sofrimento dos bichos que são abatidos, os “inimigos da carne” alegam que o avanço da pecuária seria, atualmente, um dos principais fatores de degradação ambiental no Brasil.

“A pecuária é hoje a grande responsável pela derrubada da Amazônia. Estamos trocando nossas florestas por pasto para os bois comerem”, critica Hermmann Schroeder, advogado da organização não-governamental (ONG) bauruense de defesa dos animais Naturae Vitae.

Nem todos compartilham dessa visão. “O Brasil tem o maior rebanho comercial do mundo e é o principal exportador de carne bovina. Para manter essa condição não é necessário nenhum desmatamento. Os recursos naturais utilizados na bovinicultura são renováveis e tratados com seriedade pela maioria dos produtores”, afirma o médico veterinário Roberto de Oliveira Roça, livre-docente em tecnologia dos produtos de origem animal e professor da Faculdade de Ciências Agronômicas da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu.

A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (cuja sigla, em inglês, é FAO) estima que, em média, seriam necessários 15 mil litros de água para se obter um quilo de carne de boi, ao passo que, para se produzir a mesma quantidade de cereais, seriam precisos apenas 1.300 litros.

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