Nem pessimismo nem otimismo irreal. A avaliação de final do ano sobre o comportamento da economia brasileira apresentada ontem pelo presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, na sede da entidade, na avenida Paulista, em São Paulo, foi um misto de apelo pelo equilíbrio responsável de mercado com cautela sobre o cenário de recessão que pode contaminar o País em 2009.
Para evitar “prejuízos devastadores na cadeia produtiva”, Skaf cobrou medidas preventivas do governo federal para frear qualquer tentativa de contaminação do mercado interno com importações predatórias, além de redução na taxa básica de juros, ações para irrigar o crédito e mecanismos para ampliar o prazo de recolhimento de impostos.
O presidente da Fiesp mostrou preocupação especial com o deslocamento de importados do mercado asiático, através do dumping (invasão de produtos a preços muito abaixo do praticado no mercado interno). Mas Paulo Skaf avisa que não está fazendo premonição do pior. “Há um cenário de indefinição e isso não significa defender protecionismo. As economias de outros países têm ferramentas para proteger seus mercados e o que eu defendo é que o governo haja de forma preventiva. Queremos nos antecipar a um eventual surto de importação porque esperar acontecer para tentar provar que houve dumping leva meses, anos e nesta fase o prejuízo já está estabelecido. O governo tem de adotar medidas de prevenção agora para não lamentarmos depois”, comentou.
A Fiesp avalia que países como a China vão buscar outros mercados para vender seus produtos por falta de demanda com a recessão americana. “Haverá tentativas de desviar produtos para o Brasil e isso pode gerar importações predatórias. O governo tem de deixar seu arsenal de medidas de defesa pronto. Não se pode permitir a invasão de produtos com preços irreais e desleais. Se o governo não for rápido poderemos ter muitas dificuldades em vários setores”, reforçou.
Outra medida que a indústria está discutindo é a necessidade de alongar o prazo para recolher impostos, uma alternativa para a falta de liquidez. “Temos de pensar em dar fôlego para a produção e, se as medidas tomadas até agora não foram tímidas, a verdade é que resultado não deram. Iniciamos estudo para saber se há espaço legal para defender junto ao governo o financiamento do setor com prazos mais longos para recolher impostos nesta fase de incertezas”, pontuou o presidente do Fiesp em entrevista coletiva à imprensa ontem.
Crédito
Na avaliação da indústria, a liberação de depósitos compulsórios para o sistema financeiro não deu resultados. “Há carência de crédito e a liberação dos compulsórios ajudou a segurar a saúde financeira dos bancos, mas não gerou oportunidades de financiar o setor com taxas reais satisfatórias. O crédito continua caríssimo. Então estamos estudando se ao invés de liberar o compulsório para os bancos, não seria eficiente o governo financiar com prazos longos os recolhimentos de impostos”, completou.
Paulo Skaf evitou falar em números para a previsão de comportamento da economia no primeiro trimestre de 2009.
Entre os diretores de diferentes setores da área produtiva nacional presentes ao encontro de ontem em São Paulo, as projeções mais otimistas falam ainda em crescer 3% no início do próximo ano. Mas os palpites vêm imediatamente acompanhados das palavras “cautela” e “indefinição”.
De concreto, Skaf posicionou que a balança comercial “certamente não vai repetir o desempenho de superávit de US$ 24 bilhões de 2008. Vamos ter saudades de 2008 e não há como garantir que não haverá déficit inclusive. Mas não vamos nem praticar a futurologia do caos, nem o otimismo falso. O momento é de prudência e equilíbrio”.