A crise financeira mundial continua em grande destaque nos meios de comunicação. A cada dia, surgem informações novas sobre o impacto disso na vida real das pessoas. A maior parte das matérias, no entanto, trata dos efeitos negativos provocados pela crise. Mas em meio aos choros e ranger de dentes, sempre tem alguém que sorri. Na crise atual, assim como em tantas outras que vieram antes, enquanto uma parcela da população amarga sérios prejuízos, a outra festeja os cofres cheios.
Se por um lado as revendedoras de carros zero quilômetro viram o faturamento cair antes da redução de imposto, de outro as oficinas mecânicas registram aumento no movimento. Ao invés de trocar de carro, muita gente preferiu fazer uma revisão e continuar com o veículo que já tem até que a situação financeira melhore.
Tem também aqueles que desistiram de comprar um computador novo e, ao invés disso, resolveram dar um “upgrade” na máquina velha, aumentando a memória, trocando a placa de vídeo e outros ajustes.
Esses são alguns dos vários exemplos de comportamentos que prevalecem em tempos de crise. Em vez de assumir um financiamento de longo prazo, as pessoas preferem esperar. Assim, não correm o risco de perder o emprego e ainda por cima ficar com uma dívida enorme em seus calcanhares. Ao invés disso, é melhor consertar ou melhorar o que já está pago. Gasta-se menos e o objeto ganha uma sobrevida até que a economia volte aos trilhos da prosperidade.
De acordo com os economistas e consultores financeiros ouvidos pelo Jornal da Cidade, é justamente nos períodos de crise que surgem as oportunidades. Quem iria imaginar que o Itaú compraria o Unibanco em plena crise internacional? Nesse cenário, quem sai na frente são as empresas de serviços e de soluções voltadas a reduzir gastos.
Por ter um setor de prestação de serviços bastante desenvolvido, Bauru pode não sentir tanto a crise. Pelo menos por enquanto. O ramo de serviços, geralmente, é o último a ser afetado pelas crises financeiras. Primeiro vem a indústria, o comércio e só depois surge a prestação de serviços.
Para o economista Adriano Fabri, o fato de Bauru não ser dependente de um único setor, como ocorre com algumas cidades, ajuda a amenizar o impacto negativo provocado pela crise. Além de um parque industrial relativamente forte, ele lembra que a cidade conta também com comércio e empresas de serviço capazes de “segurar a onda”.
Lucro à vista
Entre os setores que devem lucrar ou estão lucrando com a crise, ele cita os bancos, que ganham por causa da valorização do crédito. Ganham também os serviços terceirizados. Com a crise, as empresas são forçadas a reduzir custos. Por causa do dólar em alta, os exportadores também são beneficiados.
Fabri cita ainda os serviços de manutenção. Muitas máquinas, equipamentos e veículos que seriam trocados esperarão mais um tempo, portanto precisarão de mais manutenção. O setor de comunicação e marketing também pode lucrar porque a crise leva as empresas a investir em sua imagem, a se apresentar como uma alternativa confiável ao mercado.
Segundo o economista, as empresas públicas e o governo não mostram que estão dispostos a diminuir investimentos. Portanto, prestar serviços ou fornecer produtos a esses órgãos em tempo de crise pode ser um bom negócio. Embora tenha sido um setor bastante afetado, a construção civil, particularmente na região de Bauru, pode ter lucro ao invés de prejuízo. Fabri lembra que até o mês passado, o número de contratos com a Caixa Econômica Federal (CEF) havia aumentado em 50% em comparação a 2007. A liberação de recursos para a construção de imóveis novos praticamente imuniza o setor contra a crise, segundo Fabri.
O economista Cláudio Gonçalves, do Conselho Regional de Economia (Corecon), citou outras boas notícias trazidas pela crise. Uma delas foi o realinhamento do câmbio. Na fase pré-crise, o dólar girava em torno de R$ 1,70, valor considerado prejudicial aos exportadores brasileiros.
Após o colapso financeiro, a moeda americana disparou e chegou a ser vendida a R$ 2,53, maior cotação desde 2005. Para os exportadores foi uma excelente notícia.