A maior catástrofe natural da história do Estado de Santa Catarina revelou que o brasileiro é solidário e generoso. Gestos de solidariedade “pipocaram” em todas as cidades e por todos os cantos do País. Mas, um desses gestos chamou a atenção na cidade de Pederneiras (26 quilômetros de Bauru). Um casal que havia comprado um carrinho de pipoca para sobreviver resolveu doá-lo para um pipoqueiro que perdeu seu equipamento de trabalho nas enchentes.
A comoção tomou conta da família Almeida a partir de uma reportagem exibida na TV, durante a tragédia que já matou mais de 130 pessoas e desalojou e desabrigou mais de 32 mil, confessa Sebastião Felício de Almeida, 43 anos. “A matéria foi rápida e não conseguimos anotar o nome do pipoqueiro e nem da cidade onde ele mora. Ele lamentava ter pedido o carrinho de pipoca com o qual ganhava seu pão de cada dia.”
Naquela noite, Almeida conversou com a mulher e, juntos com os três filhos que ainda moram com a família, resolveram doar o carrinho. “O homem lamentava ter perdido o carrinho e não sabia o que fazer, sempre foi pipoqueiro. Porém, havia um problema: como transportar o carrinho de pipocas de Pederneiras para Santa Catarina? Procuramos um supermercado que estava arrecadando doações e o carrinho foi aceito”, relata.
O doador gostaria de encontrar o pipoqueiro que perdeu o seu carrinho na enchente. “Estou entregando o carrinho na esperança que o pipoqueiro seja encontrado e que consiga refazer sua vida na mesma profissão”, espera.
O carrinho de pipocas, que vai viajar por cerca de 700 quilômetros para chegar a Santa Catarina e ajudar um pipoqueiro a refazer sua vida profissional, tem história. Foi comprado por R$ 200,00 há um ano, quando o recepcionista Sebastião de Almeida mudou da Capital para Pederneiras. “Fiquei desempregado em São Paulo e resolvi tentar a vida aqui. Sonhei que com o dinheiro da indenização pudesse comprar um casa. Mas a empresa faliu e, até hoje, não recebi os direitos trabalhistas”, conta.
A compra do carrinho era uma alternativa para a sobrevivência do casal e dos três filhos que ainda vivem com eles. “Aqui, arrumei emprego de recepcionista de hotel e meu filho de 19 anos também arrumou emprego em uma creche e não usamos o carrinho.”
O carrinho foi doado para um morador do bairro Bertolini II. “Eu já tinha doado o carrinho e ele ficou de vir buscar, mas aconteceu um acidente de trânsito e ele morreu.”
O carrinho ficou coberto com uma lona do lado de fora da casa do casal. “Não coube no interior do imóvel”. Assim que foi doado, o carrinho ganhou uma mão de tinta que mudou seu layout. Um botijão de gás pequeno seguiu viagem também.
Ontem, os membros da Loja Maçônica Deus e Caridade X foram retirá-lo na casa de Almeida, no Centro da cidade. Um maçom, que preferiu não se identificar, explicou que algumas empresas de transporte se encarregaram de levar as doações. “Vamos tentar localizar o pipoqueiro que perdeu o carrinho com os maçons de Santa Catarina.”
Ele lembrou que, na cidade, foram arrecadadas cerca de 20 toneladas de roupas, águas e alimentos não perecíveis que serão levados para os desalojados e desabrigados. “Um caminhão já seguiu para lá com doações. Agora, seguem as arrecadações finais da campanha já encerrada.”