Bauru é uma cidade extremamente castigada pela ação de pichadores, porém, este problema não é exclusividade local e até já se tornou tema de pesquisas internacionais. Uma pesquisa desenvolvida na Holanda, pela Universidade de Groningen, e publicada na edição de novembro de 2008 da revista esta-dunidense Science mostra que as conseqüências da pichação são muito mais graves e sérias do que a mera poluição visual. Isto deveria servir como um forte alerta para as autoridades locais.
A pesquisa mostra que a pichação induz a população em geral a adotar um comportamento anti-social. Embora isto pareça óbvio para muitas pessoas, a pesquisa traz conclusões baseadas em metodologias científicas e conseguiu resultados tão interessantes que foi aceita para publicação em uma das revistas científicas mais conceituadas do mundo. A revista Science é muito rígida quando avalia um artigo científico para ser publicado em suas edições, e inclusive já publicou diversos trabalhos de ganhadores do prêmio Nobel, o que lhe dá uma enorme credibilidade.
Entre outros testes, os pesquisadores da Holanda colocaram folhetos de propagandas em diversas bicicletas estacionadas em uma rua sem pichações (na Holanda o uso de bicicletas é muito comum) e verificaram que 33% dos ciclistas jogaram folhetos no chão. A experiência foi repetida dias depois no mesmo local, porém, com as paredes da rua tendo sido previamente pichadas, o que fez aumentar para quase 70% o número de ciclistas que jogaram papel no chão. Em outro teste, os pesquisadores colocaram cinco euros em um envelope transparente e o deixaram parcialmente encaixado na boca de uma caixa de correio. Em uma caixa limpa, apenas 13% das pessoas roubaram o envelope, enquanto que 87% empurraram o envelope para dentro da caixa. Quando o mesmo teste foi feito em uma caixa pichada, 27% das pessoas roubaram o envelope. Curiosamente, com a caixa sem pichações, mas em uma rua suja e degradada, a taxa de roubos foi de 25%.
Observe que a pesquisa foi feita na Holanda, onde a pichação também existe e não faltam atividades de lazer e cultura, o que prova ser um equívoco acreditar que alguém picha pela simples falta destas atividades. A pichação representa um comportamento delinqüente que pode ser encontrado em pessoas de diferentes classes sociais e níveis culturais, inclusive em pessoas com amplas opções de lazer e cultura. A pichação, antes de ser um problema social, é comprovadamente um problema criminal.
Este é um assunto tão amplo que, no Brasil, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) tem o cadastro de 152 pesquisadores brasileiros que já desenvolveram trabalhos acadêmicos envolvendo a pichação, em diferentes áreas. Comprovadamente, a delinqüência dos pichadores associada à negligência de gestores públicos na conservação de ruas, praças, escolas, etc. são fatores que criam um ambiente propício para um aumento significativo da criminalidade. Infelizmente, este cenário é comum em muitas cidades brasileiras, e Bauru não fica fora deste rol. O resultado final desta pesquisa é conclusivo, a permissividade em relação aos pichadores e a negligência dos gestores públicos influenciam o aumento da criminalidade de forma muito mais intensa do que podemos imaginar.
O autor, João E. M. Perea Martins, é professor no Departamento de Computação da Unesp em Bauru, onde também coordena o curso de bacharelado em Sistemas de Informação. Tem doutorado pela Universidade de São Paulo e pós-doutorado pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos