Se estivesse viva, a deputada Conceição da Costa Neves teria completado 100 anos em 17 de outubro de 2008. Mesmo assim, ainda hoje é lembrada, amada e venerada por muitos internos das quatro colônias de hansenianos do Estado de São Paulo como sendo a mãe dos leprosos, como eles ainda chamam até os dias de hoje. O carinho dela dedicado a eles que foram isolados compulsoriamente pelo Estado tirando-lhes o direito de viver no convívio familiar e na sociedade pela falta de conhecimento sobre o que significava a palavra lepra, que carregava o preconceito social, a discriminação e o estigma de uma doença que desde os tempos bíblicos era considerada terror da nossa humanidade.
Para reconstruir e juntar os retalhos da história e informações sobre a vida da deputada Conceição da Costa Neves nos antigos leprosários do Estado, estou em contato com os familiares da deputada que residem em Brasília e São Paulo para prestar -lhe uma homenagem em 2009 quando o Instituto “Lauro de Souza Lima” completará 76 anos de história, e será um grande marco na lembrança dos internos que ainda residem na colônia e tem na lembrança a luta da deputada, pois ela foi a responsável pela fundação da Associação Paulista de Assistência ao Doente da Lepra de quem foi sempre a presidente.
Na curta história da democracia brasileira, nenhum historiador vai encontrar a história de uma mulher como a da deputada estadual Conceição da Costa Neves. A partir de 14 de outubro de 1951, com a assinatura da lei 1.430, os internos das colônias começaram a ter o direito ao voto e ela foi eleita pela primeira vez como deputada. Nascia aí a esperança para os leprosos da época, como ela mesma dizia, e, a partir daí, se manteve, durante 16 anos e quatro mandatos como deputada, até que, em 1969, foi apanhada nas redes de cassação do AI 5, já que a política era território exclusivamente masculino e ela conseguiu ser a única mulher brasileira a assinar a Constituição Paulista de 1947 e presidir a Assembléia do Estado, pela qual foi presidente da Comissão de Orçamento e Finanças durante cinco anos.
Talvez o seu mais brilhante feito parlamentar tenha sido a elaboração de um projeto para integrar os leprosos da época à vida social. Para isso, não travou uma batalha fácil. Chegou a ser presa pelo então interventor paulista, Fernando Costa, quando ela tentou entrar à força no leprosário de Sorocaba na época. Mas o Presidente Getulio Vargas veio em seu socorro. O propósito pelo qual ela se batia e lutava incansavelmente em benefício dos hansenianos foi depois apresentado como lei pelo deputado Antonio Feliciano.
Na história do Brasil e na política brasileira, nada se compara ao feito da deputada Conceição da Costa Neves em favor dos pacientes portadores da lepra, que ela transformou em hanseníase. Hoje, continua sendo respeitada pelos internos que conviveram com ela, a exemplo desta luta são os depoimentos dos internos que residem no Instituto “Lauro de Souza Lima”, que lembram com detalhes das visitas na década de 1946 e guardam na memória as palavras de otimismo e carinho que ela tinha com os seus filhos. Tratava todos com respeito e muito carinho.
Em conversa com dona Alice, no Parque Santa Terezinha, em Aimorés, que foi amiga e até cantava na Colônia de Santo Ângelo quando a deputada chegava para visitar os internos, ela me confidenciou fatos que a própria história desconhece.
No Instituto “Lauro de Souza Lima”, o senhor Nivaldo Mercúrio com 81 anos de idade lembra com detalhes das visitas da deputada que muito ajudou na libertação dos internos abrindo os portões do Parlatório do antigo Sanatório Aimorés e dando a eles o direito de ir vir ao encontro de seus familiares. Segundo Nivaldo, uma história que não pode cair no esquecimento das nossas autoridades, uma história que o Brasil deve aos familiares da deputada Conceição da Costa Neves, que nasceu em 17 de outubro de 1908 e faleceu em 15 de julho de 1989. Trabalhar no resgate histórico da deputada é um dever que poderia ser copiada por muitos de nossos políticos como exemplo para nossa sociedade, quer no âmbito municipal, estadual e por que não na esfera federal.
Jaime Prado - servidor há 32 anos no instituto participante do Projeto Global de Preservação da História dos Hospitais Colônias do Brasil, colaborador do Morhan