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Na casa terapêutica há até casamento

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

Altair Taborda, 56 anos, e Maria das Graças Agostinho, 49 anos, são pacientes das residências terapêuticas em Bauru. Os dois estão meio que casados há cerca de três anos (na verdade, a coisa ainda não está de “papel passado”; os dois apenas moram junto).

“Eu estava na minha casa, conversando com a outra moça que morava lá, quando a enfermeira chegou acompanhada do Taborda. Ele aproveitou que ela (a funcionária) tinha ido ao quarto levar remédio para uma mulher para ficar de prosa comigo na sala. Comecei a reparar bem no rosto dele e falei comigo mesma: ‘Que homem bonito! Acho que vou pegar ele pra mim’”, conta Maria.

Taborda sorri, meio sem jeito. Tímido ele não é, longe disso. Por muito tempo, ele atuou em circos famosos como Piolim e Orlando Orfei, até ser internado, quando tinha cerca de 30 anos de idade. “Eu fui de tudo: malabarista, palhaço, trapezista e até piloto do globo da morte. Depois, comecei a beber demais e a ficar nervoso. Acabei indo parar no manicômio”, explica Taborda. Na época, ele tinha mulher e dois filhos e fazia sucesso em todos os lugares por onde passava.

Como alguém nessa situação vai parar em um manicômio? A história de Taborda não começa no circo, mas sim numa manhã longínqua no Paraná, em que ele, um garoto de 6 anos de idade que havia perdido a mãe quando ainda era bebê, presenciou o suicídio do próprio pai.

“Ele se chamava Dorval”, conta Taborda. Ao que tudo indica, Dorval era alcoólico e, durante um surto, jogou combustível no corpo e ateou fogo. O pequeno Altair foi mandado para um orfanato, mas não permaneceu por muito tempo na instituição. Aos 6 anos, ele acabou fugindo com um circo que passava pela cidade.

Depois que seu problema mental começou a se manifestar de maneira mais intensa, Taborda passou por uma dúzia de internações, em diferentes hospitais psiquiátricos. Ele chegou ao Paiva há cerca de 10 anos e está nas residências terapêuticas desde 2005.

A história de Maria na instituição é bem mais antiga. Aos 25 anos de idade, ela teve um surto após ingerir uma grande quantidade de aguardente. “Eu me lembro que umas mulheres vestidas de branco vieram me buscar e me trouxeram para cá. Nunca mais voltei a ver meus irmãos”, conta.

No Paiva, foram anos e anos de tédio e isolamento. “Não havia nada para fazer. Eu ficava o dia todo sentada fumando ou dormindo”, afirma ela. Depois que passou para a residência terapêutica, a rotina de Maria mudou. Hoje ela vai à feira e ao supermercado; faz hidroginástica; cuida dos afazeres domésticos; e costuma acompanhar Taborda aos shows de mágica que ele realiza na cidade.

Aliás, atuar como mágico é uma das poucas coisas que Taborda não fez no tempo em que esteve no circo. Isso ele foi aprender recentemente, com Átila Quaggio Coneglian, da dupla Átila e Rosi. Sempre aberto a novas experiências, Taborda fez aulas de informática a hoje é capaz de usar a rede mundial de computadores sem a ajuda de ninguém.

“Outro dia conversei com minha filha Cristiane pela Internet. Ela tem 35 anos é artista do Circo de Shangai. A última vez que nos falamos, ela estava na Argentina para uma apresentação”, afirma Taborda. Atualmente, ele também começou a freqüentar cursos de idioma. “Ainda estou no começo, não sei falar quase nada. Mas, se Deus quiser, daqui algum tempo já serei capaz de pronunciar algumas coisas em alemão, francês e inglês”, espera.

Ele também pretende se casar com Maria “de papel passado”. “Quero fazer a coisa certa, pois ela é o grande amor da minha vida. Se ela estiver feliz, eu também estarei”, garante.

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Luto

Depois que foram transferidos para as residências terapêuticas, os portadores de distúrbios psiquiátricos passaram a conviver com novas experiências e sensações. Muitos deles não faziam idéia, por exemplo, de como era perder uma pessoa querida.

“Muitos deles não tinham a noção de luto. Quando alguém morria no hospital psiquiátrico, era apenas uma cama que vagava e que logo voltava a ser preenchida”, explica a diretora da Divisão de Saúde Mental do Município, a psicóloga Vera Lúcia de Paula Rodrigues.

Hoje, quando algum paciente das residências terapêuticas morre, é organizado velório para que os colegas possam se despedir. Caso manifestem interesse, eles podem também acompanhar o enterro.

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