Todo mundo conhece aquela velha história de um milionário que começou como engraxate ou trabalhador braçal. Um destes, na verdade um rico banqueiro, consegue cinqüenta milhões numa transação de investimentos em precatórios. Nesta transação obscura com alguém de Brasília, o banqueiro decide usar sua secretária como “laranja”. Tudo parecia perfeito e seria mais uma jogada financeira desonesta tão comum em nosso território nacional. Porém, a situação se complica quando seu secretário, ao fazer o depósito, transfere todo o dinheiro para a conta de uma mulher honesta e trabalhadora, cujo marido acaba de ser demitido do Banco do rico banqueiro. Bruno Barreto faz a adaptação da peça “Caixa Dois” e cria um filme com diálogos inteligentes e situações hilárias. Mas o melhor do filme é a mesma situação, na qual todos os personagens acabam se envolvendo. Todos eles devem tomar a decisão de ficar com o dinheiro público de uma forma desonesta ou devolver o dinheiro denunciando toda a corrupção. O filme nos mostra como o individualismo está presente em nossa própria mentalidade e que corrupção não é simplesmente uma atitude presente na classe política.
Se procurarmos no dicionário a definição da palavra “revolução” encontraremos algo parecido como a derrubada, pacífica ou violenta, de qualquer governo e sua substituição por um novo. Um movimento político liderado por pessoas de caráter revolucionário e que atrai simpatizantes. Na verdade, a palavra revolução ganhou este sentido político de derrubada de poder a partir de 1688, quando as elites inglesas resolveram transformar radicalmente as regras de sucessão da coroa destronando, assim, o monarca para substituí-lo por outro. A partir daí, revolução foi quase sempre associada à mudança de governo. Porém, a origem etimológica da palavra é muito mais ampla e também exigente. Revolução vem do latim “revolutione” que quer dizer o ato de revolver, de mudar. A palavra não sinaliza uma simples mudança, mas uma transformação radical. Revolução não é sinônimo de reforma. A reforma é uma mudança periférica e superficial. A revolução, seja em qualquer dimensão da vida, é uma mudança na estrutura, a criação de um novo paradigma, de uma nova ordem, de uma nova forma de viver. O filósofo Voltaire se utiliza de uma expressão que nos ajuda a compreender melhor a palavra. Voltaire escreve sobre a “revolução do espírito” e com esta expressão procura definir a libertação de uma cega coação. Ao surgirmos e sermos criados em um universo social absorvemos, com o tempo, verdades pré-estabelecidas, nos acomodamos às estruturas sócio-econômicas e aprendemos a ver o mundo de uma determinada forma. Em outras palavras, durante nosso processo de educação somos automaticamente coagidos a viver em determinadas circunstâncias e a nos acostumar com determinadas “verdades”. Criados em uma sociedade capitalista aprendemos que felicidade significa sucesso individual, sucesso significa dinheiro, dinheiro significa status, status significa poder de compra, etc. A “revolução do espírito” é a vitória da razão sobre a simples crença. Quando nos questionamos sobre todas as coisas que possuímos à nossa volta, com um raciocínio crítico, procurando realmente compreender por que vivemos determinados relacionamentos ou a quem estão servindo as estruturas sócio-econômicas, iniciamos o despertar para um espírito revolucionário. Hannah Arendt escreve que “somente quando o pathos da novidade está presente e a novidade tem relação com a idéia de liberdade é que se pode falar de revolução”. Pathos significa clímax, ou seja, momento que torna o surgimento de algo extremamente necessário. Quando deixamos o comodismo de lado e nos esforçamos em compreender o sentido da vida e de como ela está concretamente formatada, sentimos a necessidade, atingimos o clímax, vivenciamos o pathos da mudança. Se atingimos esta necessidade estamos tomados pela “revolução do espírito”. Portanto, revolução não significa simplesmente um movimento político, uma tomada de poder ou mudanças de comportamento, mas antes de tudo, a criação de um caráter. Um caráter que reverencie, acima de tudo, a vida e através dela ame profundamente a humanidade. Somente este caráter revolucionário criado através da revolução do espírito pode dar origem a todas as revoluções possíveis. Enquanto nossos jovens estiverem preocupados com seu “próprio umbigo”, em passar no vestibular (aqueles que podem prestá-lo), em se colocar no mercado de trabalho e ter um sucesso individual a qualquer custo nunca chegaremos a construir uma sociedade, na qual o bem-estar seja comum a todos.