A posse de Barack Obama na presidência dos EUA representou mais do que o triunfo de uma longa caminhada. Mesmo com a sensação térmica de 15 graus abaixo de zero, 1 milhão e 800 mil pessoas de todas as idades, vindas de todas as partes, compareceram à esplanada do Congresso Nacional, em Washington, para não perder o momento histórico. No mesmo local, em 1963 o reverendo Martin Luther King Jr. falou sobre o seu sonho de igualdade, que agora parece se realizar. Pela primeira vez um negro ascende ao posto mais alto da nação mais poderosa do mudo. Poderosa na economia, nas armas e no desenvolvimento tecnológico. Até quando? Eis a dúvida que hoje preocupa os norte-americanos e que jamais foi tão ameaçadora.
O cenário que se apresenta é muito complicado. Nouriel Roubini, o “Senhor Desastre”, considerado também um “Nostradamus da Economia” por ter antecipado em 2006 a crise hipotecária, voltou com previsões ainda mais sombrias. Nas suas contas os bancos norte-americanos têm compromissos com os seus clientes de três trilhões e 600 bilhões de dólares. O capital de todo o sistema é de apenas um trilhão e 400 bilhões de dólares. A solução estaria na estatização do sistema. Seria o fim do capitalismo liberal, berço e glória do desenvolvimento dos Estados Unidos. O livro de cabeceira de Obama, divulgado pela imprensa, é “O homem moral”, do poeta, prosador e teólogo norte-americano Reinhold Niebuhr, expoente do pensamento religioso do século 20. Em magnífica síntese ele diz que a sociedade é sempre imoral para ser “competitiva”. Cabe ao homem enquadrá-la. A ganância, a alavancagem de grandes lucros, não importa se por vias heterodoxas e pouco ou nada éticas, levou ao desastre financeiro. Ficou claro para muitos que a mão invisível do mercado de Adam Smith não pode mais se autorregular porque os imorais aprenderam a manipular as comunicações em rede, a ponto de neutralizar regras antes consideradas imutáveis. Restou claro que nenhum país deve abrir mão da sua capacidade jurisdicional. Em seu discurso de posse Obama parecia improvisar quando, na verdade, ensaiou muito bem o speech escrito por um jovem assessor de 27 anos. Prometeu mudanças na América, ou na “Chimérica”, da qual depende o equilíbrio econômico mundial.
Enquanto não reescreve o contrato social e redefine o que significa ser cidadão o liberalismo continua. Mas, daqui para frente será exigida a contrapartida de responsabilidade. Obama começou a evidenciar os seus propósitos de “sacudir a poeira” a partir da posse já repleta de simbolismos. A mulher Michelle desprezou famosos estilistas na escolha das suas roupas de gala. O vestido de cor cítrica da posse era de uma desconhecida costureira cubano-americana e pode ser comprado na Barney’s, por 1.500 dólares. O longo branco de uma alça era de Jason Wu, um imigrante chinês de Formosa. Custou modestos 3.700 dólares. Muito diferente de quando Jacqueline Kennedy ocupou o lugar que agora é da senhora Obama. Beyoncé e Bono Vox ficaram com o privilégio de ganhar espaço na imprensa mundial. A primeira cantando At Last no baile para o primeiro-casal dançar e, o rockeiro, por ter participado do show que antecedeu a posse. Ambos são conhecidos ativistas pelos direitos humanos. Obama fez questão de repetir o juramento à Constituição que o ministro da Suprema Corte ditou errado. A lei não admite erros – pareceu reafirmar. Ao solicitar a suspensão dos julgamentos de exceção em Guantánamo, e determinar que a prisão deve ser fechada em um ano o presidente elegeu um tema sensível a todos, e não só aos americanos, para expressar de imediato o perfil renovador de sua gestão. O reconhecimento de que Guantánamo e a tortura são aberrações constitui um gesto histórico de resgate de valores que os Estados Unidos arduamente ajudaram a construir. É uma atitude política de forte caráter humanista, cujo alcance não se limita às expectativas dos próprios americanos.
Hoje pesam sobre um homem negro as esperanças do mundo, muito mais que sobre Roosevelt na Grande Depressão dos anos 30. Lyndom Johnson assumiu em plena efervescência do movimento dos direitos civis e simplesmente mandou que se realizasse o desejo da maioria. Graças ao reconhecimento da igualdade entre brancos e negros, à política de cotas nas universidades e às bolsas de estudos, Obama chegou aonde chegou. Está sob suas ordens o exército mais bem aparelhado da história da humanidade. Júlio César, Alexandre, Dario, Xerxes, Gengis Khan e Napoleão iriam morrer de inveja do poder de Obama. Cabe a ele demonstrar que o guerreiro moderno luta por uma sociedade mais justa. Que Deus o ilumine e guarde.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC