Articulistas

As vozes do silêncio


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Em 1970, o Teatro Estudantil Vicente de Carvalho se decidiu pela montagem de um texto de Aristófanes, intitulado “A Paz”. Haviam conflitos envolvendo países asiáticos com outras potencias mundiais, além dos acontecimentos que envolviam a sociedade brasileira, mergulhada nas trevas do AI-5. A linha de encenação obedecia a uma crítica aos fabricantes de armas, e aos ditadores que através de decretos, suprimiam as liberdades individuais e praticavam uma censura anacrônica nos meios de comunicação. Quase quarenta anos após, os fatos não mudaram o posicionamento desses mesmos fabricantes de armas, que geram conflitos entre nações para “testar” novas máquinas de guerra, ganhando rios de dinheiro, à custa da dor, das lágrimas e do sofrimento de inocentes. Só eles se mantêm insensíveis diante da morte e da mutilação de idosos, mulheres e crianças nesse eterno conflito entre judeus e palestinos.

Só a eles não interessa a paz na faixa de Gaza ou na Cisjordânia, no Afeganistão ou na Indochina. Quanto mais conflitos existirem, mais lucros eles obtém. O fato de milhares de pessoas estarem sofrendo com a falta de água, de alimentos e de insegurança, não abala sua insensibilidade. O que não entendo é que o mundo atravessando uma grave crise econômica, com fábricas fechando e dispensando milhares de operários no mundo, essas usinas de armamentos continuam intocáveis, como se a crise fosse uma pequena marolinha.

O mais grave é que a ONU e os dirigentes e “estadistas” mundiais não encontram soluções para esses conflitos. Cada qual se posiciona em favor deste ou daquele país envolvido na guerra, numa defesa clara dos fabricantes de armamentos de seus países. Defendem interesses econômicos, em detrimento das soluções que possam conduzir a um entendimento e à paz tão sonhada.

Por que os palestinos não podem ter seu país? Por que os curdos não podem ter sua nação? Por que cada qual não defende seus preceitos religiosos, sem a necessidade de obrigar outros a segui-los? Não existe problema sem solução, desde que haja vontade política de solucioná-lo. O radicalismo que se observa ao longo dos tempos, nada de útil produziu até agora, exceto mortes e sofrimentos. Quando os homens se tornam incapazes de resolver tais situações, só nos resta invocar os deuses, e rogar a eles que ponham um fim nessa situação. O mesmo que Aristófanes, quatrocentos anos antes de Cristo, propõe em seu texto acima mencionado. Enquanto isso somos obrigados a verificar nos telejornais o doloroso noticiário do que atualmente ocorre em Israel e na Palestina, e continuar com a sina de sermos as vozes do silêncio.

O autor, Carlos Pinto, é jornalista e presidente do ICACESP

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