A política monetária do Banco Central, desde que a crise financeira mundial começou a ser importada pelo Brasil, está na direção correta mas sem o necessário sentido de urgência que os problemas exigem. O primeiro deles - a substituição do financiamento externo das exportações, das importações e do funding bancário - merecia um ataque ousado já no mês de setembro quando sumiu o crédito externo mas a realidade é que só agora em fevereiro acendeu a luz vermelha diante dos saldos negativos do comércio em janeiro. O presidente do Banco Central manifestou em Davos a preocupação com os resultados e garantiu uma ação mais urgente para resolver as dificuldades do setor. Ele transmitiu uma mensagem muito equilibrada ao mundo financeiro, admitindo que o Brasil terá que pagar o preço da crise mostrando, contudo, que nossa economia está em condições de continuar crescendo mais do que a economia mundial.
Outro problema é a dificuldade de transmitir ao setor bancário brasileiro – cuja lucratividade e saúde estão em níveis de fazer inveja ao resto do mundo – a mensagem de conforto capaz de deter a tendência suicida que os bancos estão revelando, ao cortar preventivamente o crédito de bons devedores sob a alegação que precisam se proteger de um eventual aumento da inadimplência. Esses bancos estão minando a higidez do sistema, sem atentar para o fato que ela só se sustenta na medida em que seus clientes continuarem hígidos.
Um terceiro problema é deixar de enfrentar a questão dos spreads bancários. Existem alguns mitos em torno disso e é verdade que não há cálculos adequados que permitam homogeneizar as informações entre os diversos países. Uma coisa, porém, é certa: a taxa de retorno do sistema financeiro no Brasil é a maior do mundo. Além da política do Banco Central sustentar a maior taxa de juros real do planeta há mais de uma década (e isso não se pode debitar ao setor bancário privado) ainda promoveu nos últimos dez meses o maior aumento da taxa real de juros também do mundo.
Um levantamento recente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo confirmou que em plena crise houve um aumento de 20% no custo financeiro das empresas e não se obtém uma explicação plausível nem dos bancos nem da autoridade monetária para essa barbaridade. A questão do spread tem que ser resolvida e tem que ser tratada com cuidado. É preciso entender que não vai se conseguir reduzir o spread simplesmente conversando sobre os riscos ou lembrando os custos da tributação. Os bancos hoje cobrem seus custos praticamente com as tarifas que recolhem dos clientes e isso permite exigir deles a mais completa transparência com relação às operações. A sociedade deve ser informada pelo governo de forma muito clara a respeito da tributação que incide sobre as operações financeiras, pois ela é citada pelo setor como sendo também a mais elevada do mundo.
Seja qual for o alcance das divergências, os spreads bancários têm que ser reduzidos, com o governo assumindo que uma parte do problema é o alto nível da tributação e o sistema bancário mostrando de forma limpa e transparente os fatores de risco e as taxas de retorno.
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA/USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento