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Entrevista da semana: Miguel Aude

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 9 min

‘Honestidade deve ser passada aos mais novos’

Ao se olhar para Miguel Aude, não se nota os 90 anos em suas mãos, que ainda estão firmes, ou em sua memória, que não falhou uma só vez ao contar histórias, fatos e passagens de sua vida pessoal e pública à reportagem. Pelo contrário. Suas palavras são ricas em sabedoria e ensinamentos, conhecimentos esses passados de geração a geração na família desse descendente de libaneses.

A cultura do comércio corre nas veias de Miguel Aude, também conhecido como Afid Miguel. Foi com esse trabalho que o empresário, hoje aposentado, sustentou sua família por décadas e se tornou um dos pioneiros e mais respeitados comerciantes de todos os tempos em Bauru.

Garra e força de vontade unidas impulsionaram Aude ao cenário político da região, onde eternizou seu nome como um dos responsáveis pela emancipação do município de Arealva, em 1949, antes distrito de Soturna, pertencente a Iacanga.

Feliz por suas realizações, o pioneiro do comércio bauruense ensina que vida saudável e honesta é a receita para se chegar, com saúde e lucidez, aos 90 anos de vida.

Jornal da Cidade - Onde o senhor nasceu? Miguel - Sou de 1919. Nasci e cresci em Arealva, quando ela ainda era um distrito chamado Soturna. Foi lá que surgiu o primeiro estabelecimento comercial da minha família.

JC - Como isso aconteceu? Miguel - Meu pai estudou farmácia por um ano no Líbano e começou a vender produtos farmacêuticos, a maioria importados. Mas era uma casa grande e vendia-se de tudo um pouco.

JC - O comércio era um negócio da família? Miguel - Sim. Éramos em três irmãos e três irmãs. Todos trabalhavam no estabelecimento, que foi prosperando ao longo dos anos, graças a Deus. O comércio estava em nosso sangue.

JC - Depois a loja foi transferida para Bauru, não é mesmo? Miguel - Foi assim. Na rua Araújo Leite, 8-10, havia uma casa comercial muito grande. E nossa residência em Arealva também era grande. Decidimos vender o imóvel que tínhamos lá e comprar aqui em Bauru. Dessa forma, demos início à “Casa Formosa”.

JC - Por que esse nome? Miguel - Meu irmão Nemer já havia se mudado para Bauru e montado um estabelecimento na Vila Formosa com o nome de “Casa Formosa”. Então, em 1948, unimos o estoque que tínhamos em Arealva com o que meu irmão tinha aqui e montamos uma grande loja com o mesmo nome do antigo comércio do meu irmão, mas na rua Araújo Leite. Nossa loja era um estabelecimento incrível. Vendíamos desde agulhas de costura até mantimentos. Uma coisa interessante era que tudo era vendido solto, não havia embalagens. Milho, arroz, feijão, fubá, tudo era comercializado em sacos e pesado na hora.

JC – A família ficou com a loja até quando? Miguel - Eu e meu irmão mais novo nos separamos, amigavelmente, da sociedade em 1975. Meu irmão mais velho ficou com a loja, que foi vendida em 1989, quando ele faleceu.

JC – Por que sair de um negócio que prosperava? Miguel – Tudo tem início e fim. Eu já havia trabalhado muito, decidi descansar.

JC - Como era o comércio de Bauru nas décadas de 40 e 50? Miguel - Nossa, era espetacular. Foi ali que o comércio da cidade teve início. Superava até a Batista. Depois foi enfraquecendo, como sempre acontece com as coisas em evolução.

JC – A atual crise é pauta diária nos jornais. Existe saída para os comerciantes? Miguel – Eu acredito no seguinte: quem tem bom controle, atravessa a crise. Eu, aos 90 anos de idade, já vivi situação pior com a crise de 1929 e consegui vencê-la com sucesso. É necessário calma, cabeça no lugar e bom-senso para cuidar dos negócios. Se Deus quiser essa crise também vai passar. Dou essa dica para empresários. Outra coisa importante é não abrir a mão, ter critério e segurança ao gastar o dinheiro que se tem poupado.

JC – Qual a diferença entre o comércio da década de 40 e o de hoje? Miguel – Naquela época a cidade possuía grandes casas comerciais com proprietários daqui mesmo. Hoje temos pouquíssimas. As grandes redes tomaram conta da cidade e isso me entristece um pouco.

JC – Funcionava o crédito pelo ‘fio do bigode’? Miguel – Sim. Naquele tempo não existia o crediário. O que existia era o fiado. As pessoas chegavam até a gente e perguntavam se podíamos fiar dez quilos de uma coisa, três de outra, assim por diante. Não havia duplicata, não tinha cheques, nada disso.

JC – E os calotes? Miguel - Ah, tinha! Já nessa época muita gente não pagava o que comprava. Mas o interessante era que os comerciantes conheciam os caloteiros. Uns avisavam os outros e não vendíamos para essas pessoas. Essa pergunta sobre confiança e fio de bigode me fez lembrar uma história antiga sobre meu pai.

JC – Pode nos contar? Miguel – Claro. Meu pai comprava produtos em São Paulo e Rio de Janeiro e as duplicatas vinham para um banco em Bariri. Havia um rio que enchia nos períodos de chuva e as balsas que atravessam os rios não funcionavam. Assim, meu pai não tinha como chegar até Bariri. Havia um gerente nesse banco que gostava de tomar cerveja e acreditava muito na honestidade do meu pai. Então, ele sempre apostava umas duas caixas da bebida com que quisesse dizendo que, mesmo com a cheia do rio, o senhor Luiz Miguel (meu pai) iria pagar sua dívida.

JC – Ele vencia a aposta? Miguel – Sempre vencia. Há uns três ou quatros dias do prazo final da dívida meu pai já não conseguia dormir preocupado em como iria fazer para pagar a duplicata. E ele não deixava ninguém dormir também. Andava de um lado para outro a noite toda. Era um verdadeiro sufoco. Porém, havia um compadre pescador que possuía um bote. E como era muito amigo do meu pai, atravessava o rio com ele. Depois papai alugava ou emprestava uma mula, do outro lado do rio, e cavalgava 17 quilômetros até Bariri para pagar a conta em dia. Aí conseguíamos dormir em paz.

JC – Honestidade acima de tudo? Miguel – Com certeza. Essa era uma das qualidades marcantes do meu pai. Ele ensinou isso para mim e meus irmãos, que passamos para nossos filhos também. Acho que a honestidade precisa ser passada para as gerações mais novas, para que nunca se perca. Graças a Deus, posso dizer que eu e meus irmãos nunca ficamos sem pagar e ensino isso para meus filhos e netos.

JC - E quanto à segurança no comércio da época? Miguel – Ah, minha filha, como eram bons aqueles tempos! Dormia-se com as janelas abertas. Deixávamos as portas de casa sem trancar até as 23h sem medos. No comércio era a mesma coisa: não havia assaltos nem ladrões. Hoje é um Deus-nos-acuda. Antigamente era uma verdadeira maravilha: as pessoas colocavam as cadeiras das lojas nas calçadas e ficavam batendo papo até altas horas da noite, sem preocupações. O povo circulava pelas ruas sem receio. Hoje não é assim. Pode observar. As pessoas de bem ficam escondidas dentro de casa com medo da violência.

JC – O que mais mudou em Bauru? Miguel – Muita coisa, mas principalmente a segurança. Acredito que as polícias trabalham direto, mas não sei o que está acontecendo com as pessoas! A criminalidade está aumentando a cada dia.

JC – Houve melhorias? Miguel – Sim, e muito. Com a evolução, o transporte público melhorou 100%, a educação e a telefonia também cresceram muito.

JC – O senhor tem acesso à tecnologias, como a Internet, por exemplo? Miguel – Tenho! Não perco as notícias pela TV. Minha neta mais velha, Carolina, abriu um congresso no Chile sobre assuntos relacionados aos jovens, como aborto, drogas, entre outros. Eu vi a abertura do evento pela Internet. Nunca tinha ouvido minha neta falando em espanhol. Me emocionei muito.

JC – Está sempre atento às atualidades do mundo? Miguel – Leio o Jornal da Cidade todos os dias. Acho a edição de domingo perfeita. Não há veículo melhor nas cidades da região.

JC – É engajado na política? Miguel – Sim, estou muito atento à política, seja da cidade, nacional ou internacional. Já fui vereador nas cidades de Iacanga e Arealva. Sempre lutei pelos direitos do povo. Posso dizer, sem sombra de dúvidas, que fui um dos mentores da emancipação política do distrito de Soturna, pertencente a Iacanga na época, para o município de Arealva, que neste ano completa 60 anos. O distrito sofria com o descaso público, então resolvi lutar para melhorar a vida daquelas pessoas. Cheguei a ser secretário do Tesouro sem ganhar nada, apenas pelo bem da população. Foi uma luta grande, tivemos a ajuda de alguns deputados da região, mas conseguimos tornar o distrito de Soturna na independente Arealva.

JC – O que tem a dizer sobre a política atual de Bauru? Miguel- Estou enxergando no Rodrigo Agostinho um moço com uma longa visão política. Observo que ele tem vontade de trabalhar e que vai fazer um belo mandato.

JC – O senhor mencionou que seu pai estudou no Líbano, foi lá que ele nasceu? Miguel - Sim, tanto ele quanto minha mãe nasceram no Líbano. Os dois chegaram ao Brasil em 1907, onde formaram nossa família.

JC - O que é a família na sua vida? Miguel – Tudo. Quero dizer o seguinte: quem não convive bem com a família é melhor desistir de viver. A minha é unida, graças a Deus. Minha esposa, Yvonne, meus filhos Gesner, Gislaine e Gilson e meus netos Guilherme, Carolina e Fernanda são a minha vida.

JC – O senhor preza a amizade? Miguel – Quando mais jovem, tinha um amigo meu que fundou um clube chamado “Clube dos 29”. Era uma maneira de comemorar a data do seu aniversário todo mês. Eu gostava muito daquelas reuniões. Sempre tive amigos. Hoje ainda tenho contato com meus companheiros que ainda estão vivos. Posso dizer que nunca tive um inimigo, nem sei o que é isso.

JC – Qual é a receita para chegar aos 90 anos com essa disposição e alegria? Miguel – Primeiro eu agradeço a Deus. No mais, o segredo está na alimentação. Sempre me alimentei com leite e seus derivados e comi pouca carne vermelha. A bondade no coração é outro segredo. Se você não pode fazer o bem para as pessoas, não faça o mal, viu! Ser uma pessoa boa e ajudar o próximo é essencial para a juventude do corpo e da alma.

Perfil

Nome: Miguel (Afid) Aude Idade: 90 anos Local de Nascimento: Arealva Hobby: Leitura Livro de cabeceira: “O homem que calculava”, de Malba Tahan. Filme preferido: “Os dez mandamentos” Estilo musical predileto: Música clássica Time: Noroeste Para quem dá nota 10: “Para minha esposa, Yvonne Saliba Murad Aude, com quem estou casado há 53 anos”. Para quem dá nota 0: “Para o terrorismo, violência e corrupção”.

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