Brasília - A cúpula do PMDB deu de ombros publicamente ontem após as críticas feitas pelo senador Jarbas Vasconcelos (PE), que acusou o seu partido de ser corrupto. Jarbas disse ontem que seria genérico nas acusações por enquanto pois “o número de peemedebistas envolvidos em corrupção é muito volumoso”. Segundo ele, a prática piorou no governo Lula, apesar de que “não é de hoje que o PMDB tem sido corrupto”.
Em entrevista à revista “Veja” do final de semana, Jarbas acusou o seu partido de usar os cargos que têm no governo “para fazer negócios, ganhar comissões”. “Boa parte do PMDB quer mesmo é corrupção”, disse o senador à revista.
Cobrado a exemplificar suas críticas, ele afirmou: “Quem entra num processo como esse, não vai entrar inocente. Por enquanto, não quero citar (casos de corrupção). Tem que ter o mínimo de estratégia”.
A Executiva do PMDB divulgou nota de cinco linhas na qual classificou as declarações do senador como um “desabafo” e as críticas sobre corrupção como “genéricas”, embora ele tenha afirmado à “Veja” que no PMDB “mais de 90% praticam o clientelismo, de olho principalmente nos cargos”, e citado nominalmente os senadores José Sarney (PMDB-AP) e Renan Calheiros (PMDB-AL).
Retrocesso
Ainda à revista o senador considerou a eleição de Sarney para a presidência do Senado como “um retrocesso”, por ele não ter “nenhum compromisso ético”. Sobre Renan, disse que ele “não tem condição moral ou política para ser senador”.
Sarney e Renan se recusaram a comentar as declarações do colega como tática para evitar dar mais destaque a elas.
Desde a publicação da entrevista, Jarbas vem sendo criticado por não ter nomeando os peemedebistas que, segundo ele, usam o cargo em troca de obter vantagens financeiras. Hoje ele afirmou que sua intenção foi alimentar uma discussão sobre a reforma política e que espera ter provocado com isso uma pressão da sociedade por mudanças.
“Eu abri o debate, ofereci uma peça inicial, não quero comandar o processo.”
Ele negou que tenha interesse em ser vice de José Serra (PSDB) em 2010.
Desde a fundação
Com 43 anos de vida pública, Jarbas é um dos fundadores do MDB e chegou a presidir o partido (1989-1990). Já foi prefeito duas vezes de Recife, governador (1999-2002 e 2003-2006) e está no seu primeiro mandato de senador por Pernambuco. É por causa desse histórico que ele disse não acreditar num processo de expulsão. “Eu não quero sair do PMDB, e eles não vão me expulsar.”
Entre seus colegas, as denúncias foram recebidas com cautela. O senador Pedro Simon (RS), também fundador do MDB, disse que “o comando do PMDB não tem grandeza, só pensa no seu próprio interesse”, mas que “Jarbas é uma das pessoas mais complicadas que ele já conheceu na vida”.
O presidente nacional do PMDB e presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer (SP), afirmou ontem que o partido não deve tomar nenhuma atitude contra o senador. Temer disse repudiar as afirmações de que o PMDB é corrupto, mas que as mesmas não merecem “relevo”.
“Não queremos dar relevo a algo que não tem especificidade. Se tiver, vamos apurar. Não há intenção de apenar o Jarbas, mas repudiar a afirmação genérica contra o PMDB”, disse Temer, ressaltando que está disposto a conversar com o senador caso ele o procure.
Planalto
Assessores de Lula tentaram minimizar as declarações do senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) de que o governo compactua com a corrupção, alegando que foi uma forma de protesto de quem perdeu espaço no partido e está sem voz e voto no próprio Estado, onde existem novas lideranças.
Apesar de o governo ter decidido não responder oficialmente às críticas, não está descartada a hipótese de o presidente atacar Jarbas e a oposição de forma indireta.