Dirigir sozinho em uma trilha fora de estrada é uma coisa, só temos que nos preocupar com os buracos e alagados, mas no trânsito caótico de uma cidade as coisas mudam. A começar pelos buracos urbanos, que são maiores e mais profundos em certas cidades (!) do que em um bom fora de estrada pesado... Mas o que realmente preocupa são os outros motoristas e o trânsito em geral. O fluxo de veículos em uma avenida deve fluir bem melhor se todos estiverem prestando atenção aos sinais de trânsito, semáforos, faixas de pedestres e principalmente nos outros veículos. Um bom motorista sabe que deve dirigir para si e pelos outros, pois a maioria não olha nos espelhos retrovisores e nem dos lados.
Um carro dispõe de vários equipamentos e dispositivos de segurança ativa e passiva, tais como a buzina, espelhos retrovisores interno e externos, cintos de segurança, faróis e lanternas, airbags, bancos com apoio de cabeça, carroceria deformável, dentre outros. Poucos são os motoristas que fazem um bom uso deles e muitos só usam o cinto de segurança por que são obrigados, o que é no mínimo ridículo. Mas a falta de atenção do próprio motorista é um enorme fator de risco. Dirigir como se estivesse passeando, sem se incomodar com quem vem atrás, na frente ou dos lados, olhando para vitrines, procurar um endereço sem encostar o carro, dirigir do lado esquerdo da pista porque vai fazer uma conversão daqui a dois quilômetros, andar a 30 km/h na cidade, são atitudes que além de condenáveis, se não proibidas, são causadoras de inúmeros sérios acidentes.
O equipamento de som instalado no carro tem a finalidade de entreter e não de distrair a atenção do motorista. A música de fundo acalma e torna a direção ou a viagem mais tranqüila. Já o uso de um celular, por exemplo, é proibido enquanto se dirige porque se precisa dividir a atenção no trânsito com o celular. Segurar o aparelho no ouvido tira uma das mãos do volante e dificulta a troca de marchas, e para evitar isso existe o viva-voz. Mas qual a diferença entre conversar com um passageiro ao lado e conversar ao telefone no viva-voz? No celular ficamos mais concentrados na conversa, pois não vemos o interlocutor e podemos nos distrair do trânsito, enquanto que com um passageiro ao lado ficamos mais relaxados e não dividimos a atenção. É sutil mas estatisticamente faz uma diferença incrível, conforme demonstram estudos feitos na Suécia. Ficou provado que quando uma conversa pelo celular é sobre amenidades, a atenção no trânsito é pouco afetada, mas se recebemos uma chamada de trabalho ou de negócios, em que precisamos do raciocínio e de prestar atenção para dar uma resposta correta, a atenção é seriamente desviada, podendo ser a causa de acidentes.
Nosso amigo leitor Julio de Almeida, de Bauru, nos mandou um e-mail com uma dúvida bastante pertinente, que faço questão de responder na coluna e compartilhar com todos.
Pergunta ele: “Leitor de sua coluna no JC, gostaria de fazer uma colocação e dirimir uma dúvida. Porque é proibido o uso de fones de ouvido (com celular ou rádios) aos motoristas e é permitido aos caminhoneiros o uso do PX ? Entendo que o uso dos fones, pode diminuir a acuidade auditiva no transito, eu particularmente não uso, o mesmo com o celular. Mas não vejo como um motorista de caminhão/carretas, larga do volante e segura o fone do PX pra se comunicar, gira o dial do aparelho e coisa e tal! Não é pior ainda? Ou isso também é proibido e no entanto é vendido abertamente?”
A resposta é que são aplicações diferentes em todos os sentidos. Em um automóvel precisa-se tanto dos olhos quanto dos ouvidos para uma direção segura. O mesmo com os caminhões. O uso de fones de ouvido é proibido porque impede que se escute uma brecada, uma buzina, um grito, um apito ou qualquer outro som que possa servir de alerta para evitar um acidente. Um rádio PX de caminhão não usa fones, é como um viva-voz, porém precisa apertar o microfone. O motorista dirige em estradas e não usa o equipamento o tempo todo, só para comunicação. O correto é só usar o PX quando as condições de estrada permitirem, sem trocas frequentes de marcha, sem largar o volante e trânsito normal. E o fato dele ser um profissional muda muito de figura com relação à atenção, comparado a um motorista amador de cidade.
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Marcos Serra Negra Camerini é engenheiro mecânico formado pela Escola Politécnica da USP, pós-graduado em administração industrial e marketing e engenharia aeronáutica, com passagens como executivo na General Motors (GM) e Opel. Também é consultor de empresas e é diretor geral da Tryor Veículos Especiais Ltda. Seu site é www.marcoscamerini.com.br.