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Milenares, indulgências voltam à tona

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

Se numa roda de amigos alguém utilizar a palavra “indulgência”, é muito provável que parte das pessoas fique sem entender o que está sendo dito, enquanto outros talvez emendem com uma afirmação do tipo: “É aquela coisa que a Igreja Católica costumava vender...”

Desconhecida por parte expressiva dos católicos, indulgência é um termo de origem latina (indulgentia) que significa perdão. É um benefício espiritual oferecido pela Igreja como forma de purificar os fiéis de seus pecado.

“Indulgência é o que apaga as conseqüências de nossos pecados”, explica o padre Gustavo Crepaldi, vigário da Paróquia Nossa Senhora da Assunção, no Jardim Ouro Verde.

Embora sejam usadas “oficialmente” pela Igreja há quase 1.000 anos, as indulgências ficaram profundamente marcadas pelo episódio envolvendo o então frade agostiniano Martinho Lutero. Renomado teólogo alemão do século 16, Lutero revoltou-se contra a forma como as lideranças da Igreja da época ofereciam as indulgências aos fiéis.

Naquele tempo, qualquer fiel poderia adquirir o benefício espiritual - para si ou para um parente já morto, cuja alma se encontrasse no Purgatório - mediante pagamento. O frade Johann Tetzel foi recrutado para viajar pelos territórios episcopais da Alemanha, promovendo e vendendo indulgências, com o objetivo de financiar as reformas da Basílica de São Pedro, em Roma. Revoltado com esse “tráfico espiritual”, Lutero proferiu três sermões contra as indulgências, a partir de 1517.

Em 31 de outubro do ano seguinte, ele redigiu suas famosas “95 Teses” e as pregou na porta da Igreja do Castelo de Wittenburg - também conhecida como de Todos os Santos. No texto, Lutero tentava convocar as lideranças religiosas de seu tempo a realizarem um debate teológico sobre o significado das indulgências.

Na visão do monge, a atitude das lideranças eclesiais poderia confundir os fiéis e levá-los a confiar apenas nas indulgências, deixando de lado a confissão e o arrependimento verdadeiros. As “95 Teses” converteram-se no estopim de uma imensa polêmica no interior da Igreja, pois o texto de Lutero colocava em xeque a autoridade do papa Leão X, “idealizador” da venda dos benefícios espirituais através do decreto “Cum Postquam”.

Em pouco tempo, as divergências entre o monge agostiniano e o sumo pontífice iriam se acirrar mais e mais, em processo que acabou culminando na excomunhão de Lutero e na Reforma Protestante.

“As indulgências foram o estopim dessa ruptura. Na verdade, Lutero nunca quis deixar a Igreja, mas sim que ela voltasse ao caminho do Evangelho. Infelizmente, interesses políticos acabaram precipitando a separação”, acredita o pastor Alexandre Manoel da Costa, reverendo da Igreja Luterana em Bauru.

O professor de artes, cultura e literatura da Universidade do Sagrado Coração (USC) Antônio Walter Ribeiro Júnior admite que a polêmica do século 16 acabou estigmatizando as indulgências. Ele lembra, porém, que a prática se manteve viva no catolicismo.

“É errado supor que somente a partir dos pontificados de João Paulo II e Bento XVI elas voltaram a ser usadas. Na verdade, o que vem ocorrendo nos últimos tempos é uma tentativa de retomar a tradição e a espiritualidade do passado, o sentido original das indulgências”, explica.

Atualmente, os fiéis não têm mais condições de comprar indulgências. Para alcançá-las (seja para si mesmo ou para um ente querido que já tenha morrido), a pessoa tem de passar, primeiramente, por uma transformação interior, ou seja, arrepender-se de seus pecados.

“A indulgência não exclui o arrependimento e a confissão. Ela depende de uma predisposição interior de nossa parte, no sentido de nos afastarmos do pecado e buscarmos cada vez mais a Deus”, afirma o padre Crepaldi.

Ano passado, o papa Bento XVI determinou, através do decreto “Paenitentiaria Apostolica Urbis et Orbi”, que todos os “todos os fiéis cristãos deveras arrependidos que, devidamente purificados mediante o Sacramento da Penitência e restaurados pela Sagrada Comunhão, de modo piedoso visitarem em peregrinação a Basílica papal de São Paulo na Via Ostiense e rezarem segundo as intenções do Sumo Pontífice (sic)” receberão “indulgência plenária da pena temporal de seus pecados”.

Localizada na Itália, a via Ostiense é uma estrada que liga Roma aos depósitos de sal existentes na foz (ostia) do rio Tibre. As indulgências serão distribuídas em comemoração aos dois milênios do nascimento do apóstolo Paulo. O jubileu paulino deverá se estender até 28 de junho.

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