Depois de atuar por quase duas décadas como padre (em paróquias na região de Presidente Prudente e como reitor do seminário provincial, em Marília), o sacerdote Maurício Grotto de Camargo foi nomeado para o cargo de bispo de Assis, em 2000.
Dom Maurício, que nos tempos de Pontal do Paranapanema havia sido até ameaçado de morte por conta de suas idéias favoráveis à reforma agrária e aos movimentos sociais, deparou-se com uma realidade bem mais calma na nova diocese.
“A situação em Assis é mais tranqüila, pois ali existe uma boa distribuição de terras, com um considerável número de pequenas e médias propriedades”, explica dom Maurício, que recentemente foi nomeado para o cargo de arcebispo de Botucatu (100 quilômetros de Bauru).
Do dia em que foi ordenado até hoje, dom Maurício vem persistindo em suas críticas às estruturas excludentes da sociedade brasileira. “Como é possível que um país rico, imenso e cristão como nosso tenha mais gente passando fome do que a China?”, costuma questionar.
Visto como progressista por certos setores da mídia, dom Maurício terá como missão, nos próximos anos, ampliar a participação dos leigos nos trabalhos de evangelização da arquidiocese. “No projeto de Jesus Cristo, a salvação se dá de forma coletiva. Ninguém vai para o céu sozinho”, acredita.
Um aspecto interessante nessa história é que a indicação de dom Maurício - homem cuja trajetória tem fortes ligações com a dos movimentos sociais organizados - para o comando da Arquidiocese de Botucatu deu-se por decisão de Bento XVI, papa tido como um dos mais conservadores dos últimos tempos.
Para muitos, aliás, a própria Arquidiocese de Botucatu pode ser considerada de perfil mais conservador, quando comparada às suas congêneres. Dom Maurício, porém, prefere passar ao largo dessa discussão. “Não sei se sou conversador ou progressista. Tento apenas ser honesto, a despeito de minhas limitações”. Acompanhe, a seguir, o restante da entrevista que ele concedeu ao Jornal da Cidade na última “Quarta-Feira de Cinzas”.
Jornal da Cidade - O senhor atuou como padre por quanto tempo até ser nomeado bispo?
Dom Maurício Grotto de Camargo - Atuei como padre por quase 20 anos. Nesse período, tive a oportunidade de assumir o cargo de reitor do Seminário Provincial Sagrado Coração de Jesus, em Marília, nos anos 80 (ele voltaria a assumir o cargo, no final da década de 90). Em 2000, fui nomeado bispo de Assis.
JC - A vida em Assis era tão perigosa como no Pontal do Paranapanema?
Dom Maurício - A situação era bem mais tranqüila. Acho importante frisar esse aspecto: a estrutura fundiária na região de Assis é mais igualitária do que no Pontal. Ali predominam as pequenas e médias propriedades rurais, ao passo que, na região de Prudente, os latifúndios são maioria. Muitas vezes, as pessoas ouvem lideranças ligadas à Igreja criticarem os latifúndios e ficam com a falsa impressão de que somos contra a propriedade privada. Pelo contrário. Somos totalmente favoráveis à propriedade, mas a propriedade para todos. Os latifundiários, eles sim, é que são contrários à propriedade. Querem a terra só para eles, não aceitam dividi-la com mais ninguém.
JC - Sobre o período em que o senhor foi reitor do seminário: muitas pessoas que participam do dia-a-dia da Igreja - padres e bispos, inclusive - não querem saber de ouvir falar em movimentos organizados, reforma agrária e coisas do gênero; o senhor, por outro lado, tem dedicado sua vida a lutar pelas causas sociais. Como o senhor lidava com essas diferenças de posicionamento, no tempo em que atuou na formação de novos sacerdotes?
Dom Maurício - São Paulo costumava comparar o reino de Deus ao corpo humano. Considero a analogia bastante válida. O importante é fazer parte do organismo, não interessa de que forma. Se todos fossem olhos, quem seria a boca? Temos de entender que nem todo mundo tem carisma para atuar em trabalhos sociais. Agora, é essencial que todos estejam em comunhão espiritual com as obras da Igreja.
JC - Entre 2001 e 2007, o senhor foi bispo referencial da Comissão Pastoral da Terra no Estado. De lá para cá, o senhor vem exercendo alguma atividade ligada aos movimentos sociais?
Dom Maurício - Atualmente, sou bispo referencial das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) em São Paulo...
JC - Volta e meia, ouvimos dizer que as CEBs teriam perdido espaço nos últimos anos devido ao avanço de outros movimentos no interior da Igreja. O que o senhor pensa a respeito disso?
Dom Maurício - Nos anos 60 e 70, a repressão da ditadura fez com que as portas se fechassem para os movimentos sociais. O único espaço onde eles conseguiam encontrar um pouco de oxigênio eram as CEBs. Depois, com a redemocratização, esses movimentos se reorganizaram e ganharam força. Quem era mais ligado ao movimento operário, retornou para os sindicatos; quem atuava ao lado dos camponeses, foi lutar pela reforma agrária; e assim por diante. Tem gente que até hoje chora o fato desse pessoal ter deixado as CEBs. Eu acho essa mudança natural, primeiro porque essa gente não deixou de ser cristã. Além disso, acredito que, hoje, as CEBs estão mais maduras quanto ao seu papel na Igreja.
JC - Como assim?
Dom Maurício - Antigamente, muita gente militava nas CEBs não porque tivesse fé, mas porque ali era o único espaço que esse pessoal encontrava para atuar. Era comum, por exemplo, líderes operários tentarem transformar as CEBs em células sindicais. Hoje, isso já não ocorre mais. Os tempos são outros. Cada lado (a Igreja e os movimentos sociais) sabe bem até onde vão os limites dessa relação.
JC - O senhor assumiu o cargo de arcebispo no lugar de dom Aloysio Leal Penna, que se encontra afastado por problemas de saúde. É sua intenção manter os projetos de seu antecessor?
Dom Maurício - Como assumi há poucos dias (a posse foi no último dia 15), ainda estou conhecendo melhor a realidade da arquidiocese. Entre as iniciativas criadas por dom Aloysio, porém, existe uma que terá atenção especial nos próximos anos. É o Projeto Paróquia Missionária (Propami).
JC - Em que consiste a idéia?
Dom Maurício - A Igreja passou muito tempo achando que todo mundo era católico. Bastava apenas rezar umas missas, celebrar uns casamentos, e já era o bastante. Foi assim até que ela se deu conta de que as coisas não eram bem por aí: tem muita gente que é batizada e não vive a fé nem conhece os evangelhos. Agora, com o Propami, queremos fazer com que os fiéis praticantes saiam de casa e comecem a ir de porta em porta para conhecer as realidades de cada família e levar a palavra de Deus a todos. Descentralizar - essa é a palavra. O futuro da Igreja, na minha opinião, são as redes de de pequenas comunidades em que os leigos serão os protagonistas.
JC - Podemos dizer que isso se trata de uma reação ao avanço dos evangélicos?
Dom Maurício - De certa forma, eles nos deram uma lição na medida em que puseram a Bíblia embaixo do braço e saíram pregando nos lugares onde o povo estava.
JC - É comum ouvirmos dizer que a liderança X da Igreja é conservadora, ao passo que Y seria mais progressista. O senhor concorda com essas definições?
Dom Maurício - Muitas vezes, as pessoas que estão do lado de fora não conseguem entender o que ocorre na Igreja. Quer dizer: sabemos que todo ser humano é limitado, mas alguém precisa ser papa, bispo ou padre. O que vem em primeiro lugar não é o fato de a pessoa ser conservadora ou progressista, mas sim a ação do Espirito Santo no mundo. Pode acontecer, em certos momentos, de não sermos capazes de compreender porque determinado indivíduo foi escolhido para ocupar um cargo; mas depois de um tempo, percebemos que o dedo de Deus estava ali, agindo em favor de seu povo. A postura da Igreja não muda ao longo dos séculos. O que pode se alterar são as práticas. Acreditamos, por exemplo, que a vida humana possui uma dignidade inviolável. Hoje, assistimos a essa séria discussão em torno da bioética: até que ponto a ciência tem direito de usar embriões humanos em suas pesquisas? Isso não quer dizer que somos contra a ciência. Fé e razão não se excluem. Por outro lado, a ciência não pode se colocar no lugar de Deus, até porque o Senhor jamais fere suas criaturas. Agora, eu pergunto: quem irá ter acesso a esses tratamentos? Sabemos que o primeiro que encontrar uma maneira de utilizar as células-tronco irá patentear a descoberta e lucrar um bocado. Quando a Igreja critica esse tipo de pesquisa, está denunciando também a comercialização da medicina, coisa que poucos têm coragem de fazer hoje em dia.
JC - Mas o senhor, como se define?
Dom Maurício - Não tenho como dizer se sou conservador ou progressista. Na verdade, o que tento fazer no dia-a-dia é ser honesto - comigo mesmo, com os outros e principalmente com Deus, apesar de todas as limitações que carrego comigo.