Um dos maiores amigos desde a infância, meu primo Jurandyr morreu algumas horas atrás. Na UTI, ontem, o médico terminou sua explicação com aparente simplicidade:
- O coração já se foi. Junto com o enfarte do miocárdio veio o choque, a inconsciência, a vida mantida por inúmeros aparelhos, eu tocava seus dedos, estavam frios. Na testa os cabelos caídos, meio brancos, os olhos semiabertos fixados no teto. Faltavam ainda alguns exames complicados para ver se haveria possibilidade de cirurgia cardíaca, se não, a última chance seria o transplante de coração.
Fez-se a cirurgia. A morte foi a melhor solução. Se sobrevivesse viriam as dolorosas seqüelas, o Jura não merecia. Compreendo a morte, ela é inevitável, mas estou profundamente triste. É um sentimento diferente, sério, não tem sorriso, não é feio nem bonito, apenas muito fundo. Ausência. Mas o Jurandyr não poderia ficar semivivo, cheio de deficiências bloqueando seus pensamentos, impedindo de colocar no papel e no computador as magias que eram as suas criações ou ter vida vegetativa, semi-inconsciente. Ele tinha genialidade e muita sensibilidade, precisava viver com boa qualidade. Jurandyr Bueno Filho conviveu com a beleza e a compaixão.
Era arquiteto e tenho a impressão de ser mais conhecido no exterior que no Brasil. Na Itália reconstruiu uma cidade medieval, trabalhou na Rússia, Hungria e Tchecoslováquia, na China fizeram até um selo com a sua fotografia. Não sei onde mais trabalhou, essas coisas apareciam assim no meio da conversa, por acaso eu sabia dele mais pelos outros.
Aqui no Brasil urbanizou nossa cidade, Bauru, planejou universidades, hospitais, restaurantes em rodovias e outras obras em diversas cidades. Sempre com uma beleza e simplicidade incomparáveis - um dia me telefonou se eu poderia dar uma sugestão sobre um fraldário para crianças em um restaurante na rodovia Castelo Branco... Apaixonou-se pelas árvores de minha chácara, na Cantareira, fez um projeto lindo, nunca consegui construir, era caro demais, parei apenas na casa do caseiro, dá muito bem para nós. Ele teve a delicadeza de nunca perguntar sobre o projeto irrealizado.
Muitas vezes, quando vinha a São Paulo dava um pulo até o meu consultório, simplesmente para me ver, dar um abraço. Conversávamos com naturalidade sobre banalidades, alguma coisa que estávamos querendo realizar ou tínhamos feito, sobretudo ele se mostrava sempre preocupado com os filhos de seus amigos e funcionários que estavam doentes e precisavam de alguma opinião minha sobre o que fazer, a última vez que me telefonou foi para saber quem poderia tratar de uma criança com dislexia. Tudo nele era natural – conhecimentos, inteligência, sensibilidade, compaixão. Vivia a humanização. Em nossas conversas contar ter estado na Rússia, Praga ou na China aconteciam naturalmente, sem vaidade, era o trabalho normal.
Queria que eu fosse conhecer Praga, sua paixão. Ele tinha restrições sobre os médicos, achava alguns arrogantes, mas demonstrava sempre um enorme interesse pelo meu trabalho como médico e professor. Viveu e acho que superou uma tragédia. Tinha uma irmã muito jovem e linda, Ana Maria, que parou no acostamento de uma estrada o carro que estava dirigindo – outro carro capotou e caiu sobre ele, exatamente em cima de Ana Maria. Foi a única que morreu, os outros que estavam com ela não foram atingidos. Seus projetos transmitem profunda sensibilidade.
Acho que isso é que diferencia as obras de arte – a sensibilidade transformada em beleza – os projetos e as construções podem ser muito bonitos e funcionais, mas sem sensibilidade não têm beleza. Jurandyr conhecia a beleza porque tinha sensibilidade. Com sua ausência as obras que fez podem durar muito e serem admiradas. A beleza continua, mas falta agora o criador. Eu lhe peço, tenha paciência e me espere. Não sei como é o outro lado depois da morte, se nos reconheceremos, se nossos espíritos terão rostos, ou seremos árvores, flores, música, não importa, espero que a gente converse novamente. Me espere. Tiau. Até aí. Eu não sei quando, mas eu chego...
Maria Cecília de Medeiros Viegas