Tribuna do Leitor

Os Cavadores de Poços


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Era uma figura interessante aquele pecuarista. As milhares de cabeças que ocupam suas imensas área precisavam abastecer-se de água no único poço que existia naquelas terras áridas. E a cada vez que tentava era importunado por seus vizinhos nem um pouco hospitaleiros, que, vez por outra, inclusive, obrigavam-no a se mudar para locais bem mais distantes. Não raro, depois que o pobre homem se mudava e cavava outro poço, lá vinham eles novamente e o entupiam com toda a sorte de entulhos, obrigando-o outra vez a buscar novas paragens para seus sedentos animais. E era o que acontecia, poço após poço. Não tendo a quem se queixar, visto que o chefe da nação punha-se vergonhosamente ao lado dos usurpadores, nada restava ao pobre homem senão lançar-se com toda a família e empregados em busca de um novo local, procurar água e começar tudo de novo. Sem nenhuma certeza de que o poço, desta vez, seria definitivamente seu.

Esta história verídica, embora tenha 3.000 anos, assemelha-se em muito com os empresários de hoje, sedentos por novas oportunidades de mercado. Abre-se uma loja de confecção pensando tratar-se de um verdadeiro achado, e eis que logo a fonte seca. Abre-se um outro espaço mais adiante, crendo-se que o nicho de mercado descoberto é altamente lucrativo, e eis que concorrentes vêm beber na mesma fonte. Investe-se em equipamentos, contrata-se funcionários, acredita-se no governo, mas a água fresca do sucesso não jorra. Há desemprego em massa, recessão, quebradeiras. Os poços, parecem, não jorrarão mais!

O empresário citado é um personagem bíblico. Chamava-se Isaque (ou Isaac, conforme algumas traduções), que, no hebraico Ishma, significa “aquele que ri”. Riram-se seu pai Abraão e sua mãe Sara quando, já idosos, tiveram notícia que um filho lhes nasceria. Por isso o riso e o nome do filho. Porém, os poços entupidos, os maus tratos dos vizinhos filisteus e as constantes mudanças contrariavam a promessa de Deus contida no nome. Nada havia para rir, dir-se-ia. Havia, isso sim, desertos enormes à espera do pobre homem, mostrando toneladas de areia a serem escavadas. Pela quarta, quinta, sétima, décima vez... Entretanto, havia uma promessa! Sim, uma promessa. Deus a havia feito a seu pai Abraão, e prometera prosperar todo aquele que não desanimas-se e nEle confiasse de todo coração.

Confúcio, o grande pensador chinês, dizia que “o ser superior não é somente persistente: ele é persistente no caminho certo”. Ora, se todos sabemos que o caminho é esse, vamos em frente. Há muita areia para ser escavada, é verdade. Mas também há muita água pra jorrar! A questão é uma só, parece-me: esperar. Isaque esperou paciente, e um dia o próprio rei do povo que o assolava veio até ele e desculpou-se. Abriu-lhe passagem por suas terras e nunca mais foi importunado. Venceu.

Nós também haveremos de vencer. Afinal, não foi um Japão destruído pela guerra que deu origem à super-potência comercial de hoje? Ou uma Alemanha? Ou uma Coréia?

Persistência... O caminho está certo; vamos pagar o preço de trilhá-lo? Deus disse: “Ajuda-te e eu te ajudarei”. E se o próprio Deus está conosco, quem poderá estar contra nós?

Primo A. Mangialardo

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