Tribuna do Leitor

Vereadores voluntários


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A todo o momento ouço ou leio reclamações a respeito de nossa vereança. Não só de nossa vereança, mas dos políticos de um modo geral. No caso de nossos vereadores, reclama-se da falta de bons projetos, do aumento dos próprios salários, do excesso de homenagens que fazem, da ociosidade, sem falar em TV Câmara, gastos excessivos com assessores, e por aí vai. O certo é que nossos políticos custam muito caro ao País, e são pouco produtivos. Sentimo-nos, na maioria das vezes, impotentes em mudar este cenário político.

O poder do voto raramente corrige tal distorção, pois quase sempre, aqueles que acreditamos bons tornam-se ruins quando assumem seus cargos eletivos e aderem ao sistema viciado. O voto também deveria ser a arma do povo para reprovar os maus políticos. Todos sabem que isso não acontece. O poder econômico destes é maior, perpetuando-os na vida pública, e tornando-os políticos profissionais, o que não me parece correto. Qual o motivo que leva alguém a gastar tanto dinheiro para se eleger? Qual será a contrapartida? Ou será o salário ou será a possibilidade de negociatas.

Quando ouvimos algo elogioso de nossa cidade nunca é sobre nossos políticos. Somos conhecidos pelo sanduíche Bauru, pelo Centrinho, por nosso astronauta etc. Já na política é a cidade do ex-prefeito preso, da cidade sem governo, dos buracos, do viaduto inacabado e outras porcarias.

Uma sugestão para começarmos a mudar isso seria um projeto de lei de iniciativa popular para não mais remunerar os vereadores. Os mesmos seriam eleitos, para o próximo mandato, já sob a nova lei. Teríamos uma vereança exercida por voluntários eleitos.

Em nossa sociedade os voluntários desempenham, e muito bem, diversas funções. Auxiliam na área da educação, saúde, segurança, defesa civil etc. Atuam tanto na iniciativa privada quanto no setor público. O mandato voluntário em muito diminuiria as despesas com nossos políticos, pois manteríamos apenas os gastos com as instalações físicas da Câmara dos Vereadores. Até mesmo os assessores poderiam ser voluntários. Quando perguntamos aos nossos políticos o porquê de se candidatarem a um cargo eletivo, quase sempre respondem que são movidos pela vocação de servir ao povo; a vocação de defender a democracia; o sonho de ajudar os menos favorecidos; a vontade de ver um País mais justo, etc. Ora, que eu saiba, quem tanto busca o servir, o faz sem remuneração, ou será que este servir deve vir acompanhado de recompensa? Não deveria.

Nossos vereadores não fazem nada muito diferente do que um líder ou presidente de associação de bairro faz, e estes nada recebem por isso. Um representante de bairro trabalha pelo verdadeiro servir. Se estes legítimos representantes dos bairros trabalham sem remuneração, não vejo o porquê remunerar os legítimos vereadores eleitos. Se aos já vereadores ou aos próximos candidatos a falta de remuneração for um empecilho, pois então não mais concorram a estes cargos públicos.

Os atuais vereadores devem ter várias razões para defender seus salários. Devemos estar dispostos a discutir todas elas. Se disserem que sem esta remuneração não aparecerão bons candidatos, acreditem os senhores, irão se surpreender com a quantidade e qualidade de pessoas dispostas a trabalhar pela cidade. Se as desqualificarem, será o mesmo que desqualificar todos os voluntários que desenvolvem as mais diversas atividades: um médico voluntário exerce do mesmo modo seu ofício; um engenheiro voluntário não construirá um edifício menos resistente; uma merendeira voluntária não cozinhará de forma diferente a que cozinha para os seus; um advogado voluntário não defenderá menos ou interpretará a lei para prejudicar seu cliente.

E deste modo um vereador voluntário exercerá sua função com a mesma responsabilidade que um remunerado, com a vantagem de menos onerar nosso município. Muitas outras razões deverão ser argüidas pelos defensores da remuneração, porém, ao consultarmos os munícipes, sempre alguém terá um bom ponto de vista defendendo o voluntariado. Só no Estado de São Paulo temos aproximadamente 6.300 vereadores, número que sobe para mais de 50.000 em todo o País. Imaginem a economia que isto resultaria. Que Bauru seja, em todo o Brasil, conhecido pela cidade onde a vereança é exercida por voluntários não remunerados, eleitos pela população. Dando, deste modo, a este País um exemplo a ser seguido por vários outros municípios. Este maravilhoso exemplo certamente contagiará outras cidades igualmente descontentes com os políticos, o que não são poucas. Seria o início da reforma política.

Uma sugestão de roteiro para tudo isso começa pela mobilização das entidades formadoras de opinião. Advogados ou estudantes do direito poderão redigir tal projeto de lei de iniciativa popular. Associações de bairros, sindicatos, UNE, ONGs, entidades representativas de trabalhadores, agremiações, empresas, Rotary, Lions e população em geral deveriam aderir a tal movimento realizando a coleta das assinaturas dos eleitores. Jornais deveriam circular com os formulários para que as pessoas possam manifestar sua vontade a favor de tal mudança. Tal movimento contagiará esta cidade como há tempo não vemos.

Vifrano Macário Gazoli

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