Apesar da forte redução da atividade econômica no último trimestre de 2008, o Brasil terminou o ano com o PIB crescendo 5,1%, o que é um resultado altamente expressivo em relação ao resto do mundo. Foi a segunda taxa de expansão da economia dentre os chamados emergentes. Não há dúvida, porém, que vamos carregar em 2009 os efeitos negativos da redução dos níveis de investimento de 9,8% no quarto trimestre em relação ao período anterior. Essa queda é o que de pior aconteceu pela expectativa que transfere para a atividade nos próximos meses.
Conhecidos esses fatos era de se esperar que o Conselho de Política Monetária do Banco Central iniciasse com um pouco mais de ousadia o processo de redução da taxa Selic, entendendo que o problema a ser evitado é a queda do ritmo de atividade da economia e não o aumento da inflação. O contágio da crise financeira mundial, a partir da morte súbita do crédito, deixou ao governo muito poucos instrumentos para enfrentar os efeitos da recessão que já atingiu as maiores economias e que estão sendo exportados para os demais. No caso brasileiro, particularmente, a queda das taxas de juros (das alturas onde ainda se encontram) seria um instrumento da maior importância que poucas economias dispõem.
Essa queda mais rápida dos juros se justifica porque a inflação não sofre ameaça externa diante de uma deflação mundial de preços. E também porque as próprias taxas de juros nas maiores economias como os Estados Unidos, a Inglaterra e o Japão estão zeradas nominalmente, o que significa taxas de juros reais negativas. Infelizmente, o Copom limitou a redução da Selic 1,5 pontos quando poderia ter feito pelo menos 2 pontos percentuais. A taxa brasileira ficou em 11,25% de juro nominal, o que nos mantém com a maior taxa de juros real do mundo, de 6,7% para os próximos doze meses. Esse processo terá que ser acelerado para nos afastar da ameaça de recessão, uma hipótese absolutamente dispensável.
O governo vai precisar de um grande empenho na contenção de suas despesas de custeio para aumentar a velocidade dos investimentos públicos e liberar recursos para a retomada dos investimentos privados. O Banco Central tem meios de motivar o sistema bancário a suprir o crédito às empresas para que a produção volte a crescer já neste segundo trimestre e possamos recuperar os níveis de crescimento do PIB, se não com a força dos três anos anteriores mas bem acima das catastróficas previsões dos “Profetas do Juízo Final” na precisa definição do jornalista Joelmir Betting.
Tenho insistido que o crescimento em 2009 vai depender do que formos capazes de fazer a cada dia. Ele não está e não será determinado pelo que ficou para trás e sim pelo trabalho que pudermos realizar daqui para a frente. É preciso apoiar a disposição do Presidente Lula em ampliar as obras do PAC, na recuperação da infraestrutura rodoviária, nos programas de construção de moradias e de saneamento principalmente, que são capazes de criar os empregos que os brasileiros necessitam tanto no Interior do País quanto nas regiões urbanas para atravessar esse período mais agudo da crise.
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento - e-mail : contatodelfimnetto@terra.com.br