Atualmente, poucos moradores da aldeia “Índia Vanuíre” têm noção da história de violência em que seus antepassados estiveram envolvidos. “Meu pai contava que, uma vez, uns brancos machucaram ele”, afirma o cacique caingangue, Irineu Cotuí, 58 anos.
“Foi na época em que índios e brancos estavam em guerra?”, pergunto.
“Olha, não tenho como afirmar. Pode ser que tenha sido numa briga ou então jogando bola...”
Fico com a impressão de que, entre os caingangues da época de Vanuíre e os de hoje, existe um hiato profundo. Nenhuma lenda, nenhum deus antigo, nenhum mito fundador. A diretora da escola estadual indígena da aldeia, Valdenice Cardoso Soares Vaiti, é uma das poucas capazes de recordar alguma tradição do povo guerreiro.
“Os caingangues acreditavam que o mundo surgiu de uma grande explosão. Antes disso, todos viviam dentro da terra, na escuridão. Depois do estrondo, uma grande fenda se abriu e eles puderam ver a luz. Os primeiros casais se formaram e começaram a se espalhar pelo mundo”, relata.
Na escola, os alunos aprendem a ler e a escrever nos idiomas caingangue e krenak e também entram em contato com alguns costumes antigos. Uma porta, com o personagem Chico Bento e a inscrição em caingangue “ungré”, indica o sanitário masculino. Outra, com a figura da Mônica e a expressão “tantá”, indica o banheiro feminino.
Além da escola, os idosos representam atualmente uma espécie de elo derradeiro com o passado sangrento do povo. A aposentada Ena Luíza de Campos, 69 anos, recorda-se até hoje de um caso de vingança envolvendo seus antepassados.
“Mãe contava que brancos mataram tio do primo dela (ela tem dificuldades para falar em português). De raiva, eles ‘deu’ frechada e matou o homem; depois, cortou um tanto de pau assim e fez ele (o cadáver do branco) ficar sentado na linha do trem (sic)”, relata.
A mãe de Ena se chamava Maria Cecília. Ela era candiri, uma espécie de artesã oficial da aldeia, responsável por fabricar os utensílios de barro. Atualmente, os caingangues têm geladeira em casa e já não precisam mais usar os vasos de argila.
“A vida de seu povo mudou bastante, não é?”, comento com a aposentada Ana Barbosa, idade desconhecida. “Você queria o quê? Que a gente ficasse morando em casa de sapé para sempre?”, brinca.