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Segunda casa

Adilson Luiz Gonçalves
| Tempo de leitura: 3 min

Quando entrei na escola, aos 7 anos de idade, já tinha ouvido dizer que a professora era como uma segunda mãe e que a escola era nossa segunda casa. Eu estava bastante satisfeito com as minhas, mãe e casa, mas fiquei muito impressionado com o prédio do grupo escolar onde fui estudar: era enorme e suntuoso! Naquela época, eu morava num apartamento de dois quartos, sala, cozinha, banheiro e área de serviço. Ali, éramos cinco: pai, mãe e três filhos. Depois, vieram mais duas filhas. Era pouco espaço para muita energia. Daí, o pátio da escola resolveu esse problema.

A história da segunda mãe era relativa: a professora do primeiro ano fez jus ao título, mas as duas seguintes... Mas isso não importava, pois eu estava na escola para aprender. E aprendi muito, inclusive, a respeitar esse precioso ambiente formador, transformador e socializante por excelência. Esse respeito abrangia professores - embora alguns adorassem amedrontar gratuitamente os alunos - e patrimônio. Sabíamos que a escola era uma “casa” transitória, um abrigo que depois serviria a outros. Era uma instituição de onde poderíamos - se fossemos minimamente inteligentes - extrair todo o conhecimento possível, mas sem esvaí-la ou esgotá-la. Era como uma fonte, que saciava a sede de todo viajante, mas que cada um deveria preservar para o que viesse depois. Criamos a consciência de que destruir uma escola é o pior tipo de vandalismo que pode existir, pois também destrói vidas, presentes e futuras!

Essa noção era reforçada por uma forma diferente de educar: participávamos da manutenção dos prédios escolares! Isso ocorria nas férias: os alunos eram convidados a ajudar na limpeza e até em serviços mais complexos. Lavávamos salas de aula e pátios; lixávamos e pintávamos paredes, lousas e mesas. Tudo num clima animado, entremeado com brincadeiras e saudade das aulas. Saudade? Pois é: tínhamos saudade da escola! O lado negativo era que não havia escolas públicas bem equipadas para todos. Isso dependia dos governos, mas, também, das Associações de Pais e Mestres (APMs). Assim, algumas eram concebidas para serem núcleos de excelência, com acesso mediante Exame de Admissão. Havia filas enormes para os processos seletivos, pois pais responsáveis queriam seus filhos lá e os exortavam a estudar para isso. Meu pai, que trabalhava três períodos por dia, aproveitou seu único horário de descanso: a tarde de sábado, para tomar lições antes do exame. Depois que passei, ele nunca mais precisou fazer isso.

A primeira casa, entendida como família, trabalhava em perfeita sintonia com a segunda: a escola, ambas formando e informando, preparando para a vida! Hoje, vejo com alegria os caminhos trilhados por meus colegas de então. Fazer faxina na escola não nos diminuiu. Pelo contrário, ensinou-nos valores que trazemos até hoje. O esforço para passar nos exames de admissão e “vestibulinhos” para escolas públicas de qualidade diferenciada motivou-nos na continuidade dos estudos. Essa fórmula pode não ser a ideal, mas já serviu muito bem. E a escola foi segunda casa, acolhedora e querida, para muitos! Enquanto a utopia do ensino de qualidade para todos não se realiza, talvez esse modelo ainda seja bastante útil. Talvez a segunda casa sirva de exemplo para a primeira e a aprendizagem seja ainda maior, para alguns pais e políticos também!

O autor, Adilson Luiz Gonçalves, é mestre em educação, escritor, engenheiro e professor universitário

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