Turismo

Animais exóticos e raios de sol à meia-noite

Jaime Bórquez
| Tempo de leitura: 5 min

Ao adentrar pela Península Antártica as paisagens vão sendo ainda mais surpreendentes e inesperadas. Soma-se a isso o longo período de luz solar que há no verão destas latitudes. Nos meses de janeiro e fevereiro, a noite só é presente no relógio. Pode se estar em plena meia-noite com o horizonte ainda iluminado pelos raios do sol. A madrugada começa avermelhada e termina amarela, em pouquíssimas horas.

O sol vira um joão-teimoso, como aquele barquinho do Amir Klink, que capotava e voltava ao normal, nem mal mergulha no confim da nossa visão quando já está emergindo de novo.

Quem precisa de escuridão para dormir deve arrumar muito bem as cortinas da janela. Se mesmo assim o sono não vingar, um bom gole de uísque e as calmas águas antárticas podem ajudar na difícil tarefa de cair em braços de Morfeu. O mar não tem ondas nem marolas, e se tem a sensação de que o barco não está navegando.

Os canais tranqüilos viram espelhos d’agua e, ao olhar de ponta-cabeça, as paisagens são praticamente iguais, tanto a verdadeira como a refletida. O cenário é absolutamente cativante, se navega em silencio total pelo canal Errera, Danco, Cuverville e o canal Lemaire, chamado de Kodak pelo irresistível impulso de tirar centenas de fotografias deste belíssimo lugar.

Porém, há um lugar impossível de esquecer: Paradise Bay. Icebergues, gigantescas montanhas cobertas de gelo, impressionantes paredões de neve, geleiras, dezenas de pingüins pulando nas águas, gaivotas, petreis, skuas e pombas antárticas brincam com as correntes quentes de ar que o navio vai deixando.

As vezes aparece alguma baleia finn, a mais vista por estes lugares, ou também pode ser uma orça, que nos deixa absortos e imóveis nas varandas exteriores do barco. Fica-se frente a uma sinfonia de vida Antártica na qual não cabe comentário algum, só admirar e guardar no nosso interior momentos únicos da vida neste planeta.

Mais surpresas

Outro momento inesquecível ou, melhor ainda, incrível, é a visita à ilha Decepção. Tudo causa surpresa, partindo por ser o único vulcão ativo do mundo a cuja cratera pode se entrar navegando. Sua última erupção foi em 1970 e destruiu completamente a base chilena Pedro Aguirre Cerda.

Hoje pode se apreciar parte dos estragos que produziu caminhando na praia de Whaler Bay, onde há pequenos navios e um trator coberto por mais de um metro de cinzas vulcânicas, o cemitério do lugar simplesmente ficou submerso nelas. Mas o marcante desta visita é o batismo antártico, um bom banho de praia em pleno polo sul.

A explicação desta inverossímil experiência é simples. O magma do vulcão está em total atividade. Isto faz que essa massa incandescente no fundo da terra esquente as águas que emergem até a superfície.

Na praia de Whaler Bay basta fazer um buraco para que ele se encha de água do mar bem quentinha. Em outro lugar da ilha chamado Telefone Bay, nem precisa fazer buraco, basta entrar no mar onde há traços de fumaça. As águas estão deliciosamente mornas.

Há vários outros passeios e paradas interessantes. Em Port Lockroy há uma base inglesa transformada em museu. Esta é uma viagem no túnel do tempo, já que tudo no seu interior é dos anos 50 e 60, dos talheres até o fogão da cozinha, da radio às fotos de Doris Day da sala.

Cada participante tem suas secretas explicações para visitar tão distante e raro lugar, como pode ser o Polo Sul. Para alguns é o destino da sua vida, outros procuram sair completamente daquilo que os lembre da vida urbana, do agito da metrópole. E para muitos a razão é a famosa resposta que Sir Edmund Hillary deu ao ser perguntado por quê subir o Everest: Porque ele está aí.

O indómito Polo Sul está ali esperando por corações sedentos de aventura, da natureza prístina e de amor pelo nosso planeta. E o programa Antártica XXI pode ser uma excelente opção para ir a este encontro.

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Os espantosos números antárticos

• O nome deriva do grego Arktos, ou urso. Assim chamaram eles ao Polo Norte, ou Artico, em referência à constelação da Ursa. O extremo dele é, claro, Antartico.

• A Antártica cobre quase um décimo da superficie terrestre. Seu territorio é praticamente como se juntássemos Brasil, Argentina, Chile e Peru.

• Seu isolamento dos outros continentes é assombroso e unico, debido aos mares de grande profundidade que cobrem distancias de entre 1.000 km, entre o continente Antártico e América do Sul, e 3600 km com África.

• A grossa capa de gelo que cobre a Antártica oculta sua verdadeira dimensão, mas calcula-se que sua área tem 14 milhões de km2, seguindo em tamanho a Ásia, América e África. Em inverno essa area pode chegar aos 53 milhões de km2.

• Ainda não se sabe com certeza se é uma massa territorial ou um conjunto de ilhas unidas pelo gelo.

• O pico mais alto deste lugar é o Maciço Vinson, de 4.897 metros.

• A Meseta Polar do Polo Sul alcança uma altura de 2.853 metros, sendo 2.700 de gelo.

• A maior profundidade de neve e gelo descoberta até hoje é de 4.774 metros.

• A temperatura do seu mar varia de 1ºC a 2ºC no verão e 3ºC e 5ºC no inverno, mas perto do litoral desce até 1,9ºC negativo.

• A corrente circumpolar percorre 24.000 km e transporta milhões de metros cúbicos por segundo.

• A menor temperatura registrada foi de 89,2ºC negativos, a estação Vostok.

• Antártica tem regiões sem gelo, onde as temperaturas podem ser bem altas. No Oásis de Bunger chegam a passar os 20 graus.

• As mudanças de temperatura podem ser extraordinárias e em pouco tempo. O 5 de junho de 1963, a temperatura de superfície mudou 85 graus em 96 horas e o 10 de junho, 36 graus em 12 minutos.

• O lugar mais ventoso de nosso planeta é Commonwealth Bay, na Costa Rei Jorge V, onde os ventos costumam chegar aos 300 km por hora. Perto de Port Martin os ventos sopram em forma contínua a mais de 100 km por hora durante dez dias, com tormentas de vento 340 dias ao ano.

• A umidade atmosférica antártica é 10.000 vezes menor que a do equador. Ironicamente ela recebe a maior quantidade de luz solar no verão, mas sua superfície branca reflete praticamente toda a radiação solar, que retorna ao espaço.

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