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Garatujas midiáticas

Lígia Beatriz C. Almeida
| Tempo de leitura: 3 min

Gostaria de propor uma reflexão sobre o nível de conhecimento da sociedade sobre a comunicação social. Se partirmos do princípio de que comunicação implica na existência de uma via de mão dupla pela qual trafegam informações para negociação de sentidos, e se comunicação social implica na sociedade, de forma organizada, utilizar as mídias, inclusive àquelas de massa, para comunicar suas idéias e propostas, então, a população não sabe o que significa comunicar-se socialmente. No entanto, parece que algo está em mudança nesse cenário.

Com o advento das novas tecnologias da informação e da comunicação, surge a possibilidade dos sujeitos, enfim, se apropriarem das linguagens utilizadas nos meios de comunicação. A manipulação das linguagens sonoras e audiovisuais e o seu uso conjunto com a linguagem escrita começa a ficar acessível à grande parte da população brasileira. Planejar um texto, gravá-lo e editá-lo, já faz parte do dia-a-dia de muitos de nossos jovens e de alguns não tão jovens assim. Textos são produzidos e colocados em circulação com o uso das novas mídias. Aos desatentos, pode parecer que, enfim, existe a via de mão dupla e se estabelece a comunicação social. Porém, me pergunto: em que etapa estaríamos no sentido da manifestação autoral e da apropriação social da comunicação?

Ao tomarmos como referência o conceito de Vygostki, um sujeito só conhece verdadeiramente um objeto quando encontra-se imerso em um ambiente em que o objeto seja parte do “kit de ferramentas” culturalmente disponibilizado para ele e em efetivo uso por parte dos membros mais experientes do seu meio social.

Considerando que a apropriação de um objeto cultural se dá, usualmente, de duas formas: 1) pela observação dos modos de agir com esses objetos por parte dos membros mais experientes do meio cultural; 2) seguindo instruções explícitas de como ele deve fazer uso desses objetos, concluímos que em nossa sociedade, para os cidadãos comuns, não existe a segunda possibilidade de apropriação. Não se reflete criticamente sobre o uso das mídias, nem se orienta a população sobre como usar socialmente os meios de comunicação.

Estamos, dessa forma, na primeira condição em que observamos o que está posto para entender a utilidade do ferramental e, como uma criança que pega o lápis pela primeira vez, nos exercitamos para sentir o objeto. Tal fase pode ser denominada de garatuja. Ainda de acordo com Vygotsky, estamos na etapa simbólica em que não se observam formas gráficas invariantes e se reproduz o que os outros (conglomerados de mídia) fazem. Para o autor qualquer produção só se efetiva após o período dos rabiscos. É fácil perceber que, criando-se situações para aprendizagem, as novas gerações avançarão mais rapidamente e poderão se apossar das novas TICs para produzir textos multimidiáticos autorais, superando a etapa da garatuja.

Como comunicadora social, mas acima de tudo como educadora, não posso deixar de entender a potencialidade do momento e percebê-lo como oportuno para a mediação educativa. É hora de colocar em prática a segunda forma de apropriação, munindo os cidadãos com informações sobre o direito público ao acesso aos meios de comunicação de massa, sobre a natureza dialógica da esfera pública de comunicação e sobre as formas de apropriação responsável desse ferramental.

Em muitos países, a educação às mídias já é objeto de estudo escolar e sistemático e os veículos de comunicação assumem sua parte, dando apoio a essas iniciativas. Em nossas paragens, o movimento avança a passos de tartaruga, mas avança.

A autora, Lígia Beatriz C. Almeida, é radialista e doutoranda em educação e professora da Universidade Sagrado Coração - para saber mais acesse www.ligiabeatriz.wordpress.com

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