Cultura

Uma história de canto

Karla Beraldo
| Tempo de leitura: 3 min

Doce e sorridente, dona Terezinha Bortone fica atenta e preocupada em não deixar escapar da memória uma lembrança ou história sequer. Tarefa difícil, afinal de contas “Minha vida foi muito rica”, conta ela em sua casa, onde recebeu a reportagem do JC Cultura. Umas das percussoras do canto coral em Bauru, com a criação do Orfeão do Colégio Guedes de Azevedo, na década de 1950, Terezinha relembra com carinho dos seus tempos de regência.

Prestes a comemorar seus 90 anos, que serão completados em maio, a italiana criada em Bauru desde os três meses de vida, dedicou bem menos tempo do que gostaria ao que define como sua vida. Por conta de uma fratura no braço, foi obrigada a parar de reger aos 54 anos de idade e 27 de profissão. “Fiquei bem saudosa e sentida. Só não fiquei mais triste porque sempre fui acompanhada pelos meus alunos”, conta com o colo abarrotado de cartas, fotos e demonstrações de carinho.

Encontros realizados anualmente por seus antigos alunos é, segundo ela, o que faz dos seus tempos de coral mais do que boas lembranças. “É simplesmente a festa da dona Teresa”, orgulha-se.

Reunidos sempre em novembro, em homenagem à Santa Cecília para quem suas apresentações eram dedicadas, a professora e seus ex-alunos aproveitam para matar as saudades entre si, como para fazer o que mais gostam: cantar. “Eles querem que eu vá reger de novo. Assim como eu, eles têm saudade. Cantamos músicas da época e é uma alegria só”, conta emocionada. “É que o carinho que recebo até hoje me emociona muito”, justifica-se.

Entre as recordações mais gostosas, apesar de eleger todas, dona Terezinha destaca as noite nos cines Bandeirantes e São Paulo, sempre lotados para ver os 120 alunos que chegaram a compor o orfeão. “A ansiedade era grande e a responsabilidade também. Na verdade, eu me entregava tanto para música que eu nem me lembrava de platéia, nem de nada; só ficava na torcida para eles cantarem direito”, brinca.

Dispensando o título de percursora, Terezinha conta que começou a reger movida por uma necessidade. “Para a comemoração do cinqüentenário de Bauru foi requisitado dos colégios uma participação musical. Assim, juntei meus alunos para os quais lecionava música e fomos em frente”, recorda. “Quem me deu uma mão maravilhosa, arranjou as músicas, foi o professor Efíseo Aneda (dono do primeiro conservatório da cidade)”, agradece.

Regente em tempos em que o coral se apresentava à capela - “Não tínhamos acompanhamento musical”, faz questão de lembrar - dona Terezinha dá sua receita do que um bom coral precisa. “Em primeiro lugar, a disciplina, mas não aquela disciplina rígida. O importante é obter a amizade, simpatia e o respeito dos coralistas, além de ter o gosto pelo canto e não ter medo do sacrifício”, enumera.

Entre os seus principais motivos de orgulho, está a segunda família que criou com os integrantes do coro. “Era sempre um ambiente de muita amizade e respeito um pelo outro. Consegui fazer do meu orfeão uma escola de carinho”.

Depois de uma hora de boa “prosa”, Terezinha, ainda receosa se havia cumprido bem a tarefa de ser entrevistada, despediu-se meio chateada. “São tantas histórias, mas fico nervosa e não consigo contar direitinho. Acho que nem vai dar para você escrever nada com isso”, desculpa-se. Será, dona Terezinha?

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