Londres - Anfitrião do encontro mais importante até agora para tentar resolver a pior crise econômica em décadas, o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, decretou ontem o fim do Consenso de Washington, enquanto os principais líderes mundiais eram unânimes em anunciar que a Cúpula de Londres do G20 era o “começo da virada”.
“O velho Consenso de Washington acabou. Hoje chegamos a um novo consenso, de que tomamos ação global conjunta para lidar com os problemas que enfrentamos”, disse Brown, sobre o receituário liberal hegemônico na América Latina na década de 1990. Agora, afirma o primeiro-ministro trabalhista, tem início a era da cooperação.
Uma das principais preocupações dos líderes mundiais era justamente que o encontro fosse considerado um sucesso - ele ao menos ajudou a turbinar os principais mercados acionários ontem - e por isso um se esforçava mais que o outro para destacar o caráter “histórico” da reunião.
Por trás dos sorrisos na frente das câmeras, nos bastidores a reunião foi “tensa” até os últimos minutos, como revelavam integrantes das comitivas e até alguns dos líderes. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva revelou uma discussão entre Brown e o presidente francês, Nicolas Sarkozy, e fontes norte-americanas tentavam dizer que o presidente Barack Obama foi “fundamental” para o final feliz.
Já o francês Sarkozy deixou de lado as ameaças pré-reunião, quando chegou a dizer que podia abandonar o encontro se não gostasse do seu encaminhamento, e tratou de reivindicar parte da responsabilidade pelo desfecho. Defendeu a pressão que fez ao lado da Alemanha por mais regulação e chegou até a trazer à tona a comparação com Bretton Woods (o encontro nos anos 1940 que definiu as instituições da economia internacional pelas décadas subsequentes). Afirmando que era a maior reforma do sistema desde então, falou que acabou “a loucura da desregulação total”.
Nas semanas que antecederam a cúpula, líderes de todo o planeta demonstravam apreensão sobre qual seria a recepção dos mercados e do público para o que quer que fosse anunciado ao final da reunião.
Obama confiante
O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, disse ontem que o acordo obtido na cúpula do G20 (grupo que reúne representantes dos países mais ricos e dos principais emergentes) realizada ontem marca uma “virada na busca pela recuperação econômica global”.
Os líderes concordaram em dar “passos sem precedentes para restaurar o crescimento e evitar que crise como a atual aconteçam de novo”, disse Obama, após a apresentação do acordo feita pelo premiê britânico, Gordon Brown.
Para ele, o encontro de ontem foi histórico e “muito produtivo” devido ao alcance dos desafios que o mundo enfrenta para corrigir os rumos da economia. “O desafio é claro. A economia do mundo está se contraindo”, disse, acrescentando que é preciso união global para que a economia volte a crescer. “Devemos isso a todos os nossos cidadãos.”
“Queríamos garantir que teríamos uma resposta forte e coordenada para crescer”, afirmou. Obama disse que não há um ponto específico do acordo alcançado hoje que poderia ter um reflexo mais imediato na economia americana, mas afirmou que o acordo “não é uma panaceia, mas um passo crítico” tanto para os EUA como para a economia global.
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Com ajuda a emergentes, G20 reserva US$ 1,1 trilhão para combater crise
Londres - Os países do G20 chegaram a um consenso para enfrentar a crise global com medidas conjuntas. Na principal medida anunciada, as nações concordaram em reservar fundos da ordem de US$ 1 trilhão ao FMI (Fundo Monetário Internacional), além de US$ 100 bilhões adicionais para socorrer as emergentes. Controle de bancos, paraísos fiscais e bônus a executivos, além de esforço fiscal de US$ 5 trilhões até 2010 para salvar empregos, também foram determinados como objetivos do grupo.
Os países reforçaram ainda a necessidade de manter as políticas de corte de juros para estimular as economias internas, o que ajudará a atingir a cifra de US$ 5 trilhões de expansão fiscal (principalmente cortes de impostos e gastos públicos) para a criação de empregos até o fim de 2010. Brown ressaltou que tal valor, resultado dos esforços dos governos já anunciados, reflete o maior montante já “liberado” no mundo para estimular as economias.
Outro ponto abordado é a necessidade de “trabalhar urgentemente com os líderes” mundiais para fazer avançar a Rodada Doha de liberalização comercial, no âmbito da OMC (Organização Mundial do Comércio). Segundo Brown, para expandir o comércio global, serão destinados fundos de US$ 250 bilhões aos países para financiamento. Aos países emergentes, estão previstos mais US$ 100 bilhões de bancos de desenvolvimento multilaterais, o que eleva o total dos fundos a US$ 1,1 trilhão.
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Paraísos fiscais
Londres - A OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) divulgou ontem em seu site duas listas de paraísos fiscais, após a decisão tomada pelo G20
São considerados paraísos fiscais os países que não cumprem com os padrões internacionais de compartilhamento de informações bancárias e fiscais.
A primeira lista contém os países que, segundo a OCDE, não estão comprometidos com padrão fiscal internacional. Nela se encontram Costa Rica, Malásia, Filipinas e Uruguai.
A segunda lista são de países que estão comprometidos, mas ainda não implamentaram mudanças substanciais em suas políticas fiscais. Trata-se de uma lista mais extensa, com a presença de 38 países ou territórios. Nela se encontram alguns dos mais tradicionais paraísos fiscais do planeta, como Suíça, Mônaco, Bahamas e Ilhas Cayman. Além deles, figuram países como Áustria, Panamá, Chile e Cingapura. “O relatório elaborado após a reunião do G20 reflete os resultados de mais de uma década de trabalho da OCDE para trazer uma maior abertura e transparência para os serviços financeiros internacionais”, diz o comunicado da OCDE divulgado após a reunião.