A infinita possibilidade de escolher é uma das fantasias preferidas da humanidade e nos frustramos porque negamos um fato básico: a livre escolha radical nunca acontece em nossas vidas. Nascemos e vivemos com uma série de limitações, buscando realizar o sonho da escolha. Na verdade, todos nós temos uma série de padrões dos quais não nos damos conta e que limitam a nossa capacidade de opção porque a própria escolha já é determinada por eles. O modo de ser limita a capacidade de opção e aquilo que gostamos de chamar de livre arbítrio passa a ser o resultado do “é assim que eu sou” ou “é o meu jeito”. Henri Atlan, professor de biofísica das Universidades de Paris e Hebraica de Jerusalém, desenvolveu o seguinte raciocínio: imaginemos que sobre uma mesa foi colocado um número qualquer de pequenos objetos. Eles estão ali determinados pelo limite da mesa, pelas suas características e pela maneira como estão dispostos. A liberdade de arrumar esses objetos de forma diferente é o livre arbítrio ou a permissão que nos é dada; é a possibilidade que temos de transformar nossas vidas. Os objetos são nossos padrões, aquilo que está previsto e, o espaço definido pela mesa, as nossas limitações. Seria pouco diante do nosso sonho de um arbítrio ilimitado, mas este só existiria se não fôssemos balizados pela nossa história, nossa biologia, nossos padrões de personalidade, nosso modo de pensar e sentir e nossos conceitos do que é certo e errado.
Ao contrário dos animais, só o homem tem a possibilidade de negar uma inclinação natural. Esse é o verdadeiro livre arbítrio: a capacidade de romper com o padrão automático de comportamento. A capacidade de dizer não mesmo quando o instinto natural quer dizer sim. Reorganizar as peças do jogo ou deixá-las preponderantemente voltadas para o certo, para o bem, ou para o errado, para o mal, é um exercício de liberdade. Se o propósito da existência é o de defrontar com provas morais e escolher o bem, deve haver uma possibilidade de escolher o mal. Se o mal não fosse uma alternativa real, nós não seríamos livres - as nossas ações corretas seriam, simplesmente, inevitáveis. Certamente, depreende-se que, se não há liberdade de fazer diferente, não pode haver mérito ao se fazer o bem. A recompensa e punição seriam absurdas e a vida seria questão puramente mecânica.
A existência do mal também é importante, porque para o bem adquirir algum significado é essencial a possibilidade de se fazer escolhas. Aquilo que fazemos porque assim nos determinam não tem o mesmo significado daquilo que fazemos por opção própria. Contudo, para alguém repudiar algo, deve antes reconhecer sua existência, isto é, precisa identificar as trevas em si mesmo, para poder se afastar delas. Se emergíssemos do útero sem falhas, não teríamos a necessidade de criar mudanças e transcender dificuldades. Os defeitos que o Eterno nos deu são oportunidades de exercitarmos nossa natureza buscando a perfeição. O modelo de vida ocidental prega a competição e a afirmação de um sobre o outro. Uma cultura voltada para o individualismo, que olha o próximo como uma pedra no meio do caminho. Todos almejam ser grandes executivos administrando uma empresa chamada “eu”. Existir neste meio é sinônimo de resistir aos outros.
O modelo de vida oriental, originário de um ponto do Mediterrâneo, de uma pequena civilização de andarilhos do deserto, é o responsável por introduzir o conceito de “próximo” e de responsabilidade por esse próximo. No “Ocidente”, o egoísmo é uma conseqüência do enfoque material em detrimento do espiritual. O fato dos egoístas ou dos maus, eventualmente, prosperarem não é uma realidade em si mesma, mas decorrência de uma visão materialista, portanto, unilateral. Além de lutar contra o egoísmo e a maldade, precisamos nos concentrar em cultivar a bondade. Afinal de contas, já que o mal não tem existência independente, ao nos concentrarmos nele apenas lhe damos mais oportunidade de crescer. Se o bem e o mal estão à nossa disposição para exercitarmos o livre arbítrio, o arrependimento também foi criado como opção para o perdão. O conceito pleno de arrependimento é importante, pois se diz que, quem mergulhar nas profundezas das trevas brilhará mais intensamente na luz do que quem jamais se afastou dela. O indivíduo arrependido é mais forte que o de conduta correta, pois precisou percorrer uma distância maior na escalada de volta; a ele foi necessário combater impulsos e dominá-los. Ser bom sem conhecer o mal, não é a verdadeira bondade. Isto significa que precisamos reconhecer nosso lado obscuro, reconhecer a sua existência em nós e, então, preferir a luz às trevas.
O autor, Paulo César Razuk, é professor titular do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru