Articulistas

Kassabear

Ronaldo Duran
| Tempo de leitura: 2 min

“São Paulo, minha querida São Paulo”, o sexagenário suspira. Residente da zona Leste, numa casinha acolhedora, no largo do Belém, segue no assento cinza. Vai visitar um amigo na Luz. Entra no ônibus na Celso Garcia. “Esta sujeira toda é de enjoar”, inquieta-se. As recordações da época em que ele tinha vinte anos vêm à tona, acertando a memória agressivamente, como um rodamoinho inesperado.

Lembra-se, num saudosismo opressor, o tempo em que o trajeto era o ponto chique. As senhoras desfilando, os rapazes bem arrumados. Mesmo os malandros exibiam esmero na vestimenta. As mazelas sociais existiam. Mendigos, pobreza, nada é invenção dos tempos de agora. Contudo, nada que se compare à abjeta visão. Prédios pichados, ruídos pela negligência das autoridades em consonância à barbárie dos vândalos.

Mendigos vários. Uma mendiga idosa, em cadeira de rodas, jogada num canto fétido, como se os paulistanos tivessem orgulho de exibi-la como o cartão-postal de uma cidade opulenta, mas que pouco ou nenhuma atenção dispensa aos calejados pela miséria. Agredido por assaltante em plena luz do dia. Na primeira vez, ficou indignado, não pelo assalto, mas pela inércia da nova safra paulistana que o viu ser agredido. Em seu tempo, tal atitude seria absurda. Sempre se orgulhara da coragem e solidariedade do povo paulistano. Agora, via uma corja de medrosos. Quando jovem, que morresse em combate a um ladrão. Jamais deixaria um velho ou mulher serem ofendidos. Aos trinta, um canivete perfurou o corpo, e sua coragem não morreu por causa do sangramento.

Desiludira-se com os políticos. Todos uma súcia. No máximo lambiam os pés dos Jardins, dos Alphaville e o povo trabalhador ficava com a sujeira das ruas e com os assaltantes em seu calcanhar. “Aí, me surpreendi”, desabafa com o amigo septuagenário, “um tal de Gilberto Kassab entrou para pôr ordem na bagunça. A primeira vitória foi contra a poluição visual”, defendeu. O amigo, ressabiado, cutucou, “será que vai limpar mesmo a cidade? Será que não é fogo de palha?”. “Olha, realmente não sei. O que sei é que mostrou para cidade de São Paulo que a limpeza não é sua inimiga. Àquele que se acostuma à sujeira é difícil aceitar a idéia de limpeza, como o é para o mendigo que há semanas não toma banho e escova dentes. Logo que a limpeza venha, contudo, estes dirão: como pudemos viver na sujeira? Torço para kassabear os prédios e ruas do centro, eliminando as pichações e a falta de higiene.

O autor, Ronaldo Duran, é romancista, autor do Livro “Ando de ônibus, logo existo!” - disponível na livraria www.corifeu.com.br colabora nesta coluna semanalmente. Contato com o autor: ronaldo@ronaldoduran.com

Comentários

Comentários