São 78 quilômetros, somadas ida e volta, percorridos dia sim, dia não. Foi depois de uma dessas viagens realizadas de Bauru, sua cidade por adoção, a Avaí, local onde nasceu, que o ex-ferroviário Vivaldo Pitta recebeu a reportagem do JC em sua casa, nos convidando a embarcar em um trem de histórias que ele luta para não deixar morrer.
O destino, quase que diário, é o Museu Avaiense Francisco Pitta, onde ‘seo’ Vivaldo - há 25 anos aposentado, depois de mais de 30 de trabalho na Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB),- dedica-se à preservação daquilo que ama e de memórias que, mais do contar a sua vida, resgatam a história de um tempo: o das ferrovias.
Idealizado e dirigido por ele há cinco anos, o museu funciona em uma casa alugada pela prefeitura, no centro de Avaí, e seu acervo inclui fotos, documentos e peças antigas como um telégrafo, instrumento que o ex-ferroviário começou a manusear aos 13 anos, além de uma coleção de livros dos funcionários da Noroeste, que revelam a trajetória de cada trabalhador na antiga linha. “Em 1998, ia ser tudo queimado, mas não deixei. Tinha a consciência da importância histórica desses documentos”, lembra.
Esses itens e todo o restante do material distribuído pelos quatro cômodos do local pertencem ao memorialista e são fruto de suas andanças em busca da “história”. “Sempre gostei de fazer pesquisas, procuro por sebos, vou atrás de pessoas que sei que tem algum material”, conta.
Em telas feitas à tinta óleo, Vivaldo depositou também o esforço e talento de colorir as lembranças dos trilhos. Cerca de 40 quadros com motivos ferroviários podem ser apreciados no museu em Avaí - e ainda na Biblioteca Municipal de Araraquara e nos museus Municipal e Ferroviário de Bauru. “Final da tarde, plataformas lotadas. Na saída, parecia um desfile. Os donos das lojas saíam para ver o movimento dos uniformes e admirar o pessoal da Noroeste passar. Esse foi o jeito que eu encontrei para conviver com tantas boas lembranças”, resume.
Mas não é apenas o tempo que passou que está sob os cuidados do ex-ferroviário. Desde que conseguiu viabilizar o museu - “queria muito fazer alguma coisa pela terra onde nasci” -, Vivaldo encaderna e arquiva jornais de Bauru e da cidade de Pirajuí. “Tudo e todo mundo tem uma história. Desejo que as gerações futuras saibam de onde vieram”, justifica.
Esforço
Na luta da preservação do que ama, “seo” Vivaldo Pitta parece não medir esforços, apesar da série de obstáculos que costuma encontrar pelos trilhos da vida. “Enquanto a mulher não reclamar do dinheiro que tiro de casa para levar para o museu, vou caminhando”, brinca o aposentado.
Entre as investidas do ex-ferroviário, destaca-se a criação do O Avaiense, “o primeiro jornal de museu da América Latina”. Com a última edição datada de agosto de 2008, depois de 32 publicadas, o jornal voltou-se ao resgate dos fatos e personagens históricos da região. “Eu fazia tudo, dos textos à escolha das fotos. O jornal recebia R$600,00 por mês da prefeitura, mas não dava. Cheguei a fazer dívidas para não deixar acabar, mas não teve jeito”, lamenta Pitta.
Embora tenha chegado ao fim, o jornal parece ter deixado seus frutos. Atualmente, o memorialista está com todas as suas forças voltadas para a implantação de um trem turístico entre Bauru e Avaí, projeto que estampou a capa do número 1 de “O Avaiense”. “Ver esse projeto sair do papel é meu maior desejo agora”, declara Vivaldo, 71 anos a serem completados amanhã.
A idéia inicial é que os passeios sejam realizados aos sábados e domingos, por uma locomotiva com seis vagões, com capacidade para 60 pessoas cada um, que percorreria trajeto de 42 quilômetros em 1h45. “Poderemos explorar os atrativos turísticos da região como as antigas fazendas de café e as aldeias indígenas de Araribá”, defende.
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Museu expõe fotografias antigas de Bauru
Fotografias em preto e branco, do avaiense Clodoaldo Pitta, retratam a Bauru de 1975. Entre as paisagens marcadas pelo auge das ferrovias, a bilheteria da antiga estação da Noroeste do Brasil (NOB) é apenas um dos cenários que compõem a exposição aberta à visitação no Museu Municipal Franscisco Pitta, de Avaí. A mostra segue até o dia 31 de maio.
A iniciativa de resgatar os negativos perdidos do irmão, hoje já falecido, foi de Vivaldo Pitta, também idealizador e diretor do museu. “As imagens estavam comigo e resolver ampliar. É uma forma das pessoas conhecerem um pouco mais sobre aquela época”, conta o ex-inspetor de estação da Rede Ferroviária Federal.
As 46 fotografias foram todas produzidas com uma objetiva “fisheye”, conhecida como olho de peixe, que permite um ângulo de 180º, arredondando as bordas da imagem. Clodoaldo foi ferroviário da NOB e após sua aposentadoria, mudou-se para São Paulo, onde possuía uma loja de material fotográfico e suas coleções de câmeras, especialmente a Leica, sua preferida.
• Serviço
Exposição fotográfica de Clodoaldo Pitta até 31 de maio do Museu de Avaí (rua Coronel Juvêncio Silva, 478). Visitação de terça a sexta, das 9h às 12h, e das 14h às 17h, e aos sábados e domingos, das 9h às 12h.