Geral

Desenganados que voltaram à vida

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 7 min

As pessoas cujas vidas serão narradas a seguir poderiam ser comparadas aos personagens dos contos de fadas: após passarem por situações desesperadoras, conseguiram superar as adversidades e, hoje, levam uma vida normal. A diferença é que as dores que elas sentiram foram bem reais. Sem contar que não puderam recorrer ao auxílio providencial de nenhuma fada bem intencionada nem do gênio de “As Mil e Uma Noites”.

Os personagens desta reportagem estavam desenganados - uns estavam realmente à beira da morte e outros, praticamente condenados a passar o resto de seus dias confinados a uma cama. Para retornarem “à vida”, esses bauruenses precisaram de muita força de vontade e de apoio incondicional dos amigos e familiares.

Em julho de 1994, o nutricionista Cláudio Chiodo foi atropelado em pleno canteiro central da avenida Nações Unidas. Passou nove dias em coma, teve inúmeras fraturas na coluna e esteve prestes a ficar paralítico. Atualmente, freqüenta academia, pratica esportes e trabalha normalmente, como se nunca tivesse sofrido qualquer acidente.

José Roberto da Silva, 50 anos, sofreu um acidente vascular cerebral (AVC), em 2004. Ficou quase quatro anos confinado a uma maca. Há cerca de um ano, após uma cirurgia, conseguiu recobrar os movimentos das pernas. Graças ao trabalho de fisioterapia, já consegue até dirigir sem a ajuda de ninguém.

Há cerca de três anos, Elizete Aparecida Silveira da Costa, hoje com 45 anos, descobriu que tinha dois tumores malignos, um no seio esquerdo, outro na axila direita - cada um com sete centímetros de diâmetro, ambos em processo de metástase. Fez 21 sessões de radioterapia na coluna (que já estava sendo afetada pela doença) e seis de quimioterapia. Perdeu todos os cabelos e chegou a ter de usar fraldas geriátricas. Meses atrás, ao retornar ao médico, teve de ouvir do especialista a seguinte pergunta: “Onde estão os tumores?”

Claudete Rocha da Silva, 55 anos, também teve câncer. A doença avançou para a coluna e ela acabou perdendo os movimentos das pernas e dos quadris. Nesse tempo, precisava ser amarrada à cadeira de rodas para não tombar. “Pensei que nunca mais voltaria a andar”, conta.

Ela não só voltou a andar com as próprias pernas, como também é capaz de cuidar dos afazeres de casa e ainda arruma tempo para se dedicar a trabalhos voluntários. Há algumas semanas, ao descer do carro, Claudete pisou em falso e acabou quebrando uma das pernas.

“Isso aqui (o pé engessado) não é nada se comparado ao que passei. O que me deixa meio chateada é ter de ficar presa em casa, enquanto há tanta coisa lá fora para ser feita”, desabafa.

Milagre?

Encontrar um explicação racional para curas improváveis - como as descritas anteriormente - é uma tarefa bastante difícil. No caso de Cláudio, por exemplo, a recuperação pode estar associada à profundidade da lesão e à extensão do trauma que ele sofreu.

“As chances de recuperação variam de paciente para paciente. Alguns apresentam boa resposta aos estímulos médicos, enquanto outros não conseguem reagir da maneira esperada”, pondera o cardiologista e clínico geral Roberto Minoru Tani, que atua no setor de terapia intensiva do Hospital Estadual.

Para Gilséia Peres, assistente social da Associação Bauruense de Combate ao Câncer (ABCC), recuperações como a de Claudete e Elizete podem ser explicadas pela força de vontade e pela auto-estima das pacientes.

“Tudo vai depender da vivência pessoal de cada um, da maneira como o indivíduo encara as situações”, acredita Gilséia, que também considera o apoio da família essencial para que o processo de recuperação da pessoa seja bem sucedido.

“A família é que fará o resgate do paciente. É claro que isso irá depender de como a pessoa agiu no decorrer de sua vida. Se foi carinhosa com os outros, se cultivou boas amizades, terá mais chances de encontrar apoio em uma hora de dificuldade”, salienta.

____________________

‘Eu tinha 24 horas de vida, apenas’

Noite do dia 23 de julho de 1994, avenida Nações Unidas. Faltavam alguns minutos para a meia-noite. Acompanhado de alguns amigos, o nutricionista Cláudio Chiodo, na época com 25 anos, aguardava no canteiro central a passagem de um carro para poder atravessar a via com segurança.

“O carro vinha numa espécie de ziguezague. De repente, perdeu o controle e invadiu o canteiro”, recorda-se Chiodo, que foi atingido pelo veículo desgovernado e acabou arremessado para o outro lado da pista.

Ele foi a única vítima do acidente. Quando recebeu os primeiros cuidados médicos, já estava em coma. “Mandaram chamar minha mãe e meus irmãos e disseram que eu tinha 24 horas de vida, apenas”, relata o nutricionista.

Diante de um quadro tão desolador, alguém ainda conseguiu manter a serenidade. “Minha irmã Cleide ficou tranqüila. Repetia a todo instante: ‘Ele vai escapar’”, afirma. Passadas as primeiras 24 horas, o rapaz permanecia em estado de coma.

Questionados pela família a respeito das chances de sobrevivência do nutricionista, os médicos resolveram estender o prazo: daquele momento em diante, Cláudio continuaria vivo por mais 48 horas.

Só que, mais uma vez, ele contrariou os prognósticos. “Depois disso, não deram mais prazo nenhum”, conta Cláudio, que ficou nove dias em coma. Quando, enfim, o rapaz recobrou a consciência, a família recebeu notícias nada animadoras.

“Os médicos disseram que havia grandes chances de eu ficar paralítico e com retardo mental”, lembra. Foram quase três meses de tratamento, em que o nutricionista apresentava quadros freqüentes de perda de memória.

Além disso, Chiodo teve um começo de trombose na perna esquerda, que quase precisou ser amputada. Também sofreu luxação na coluna e, por pouco, não ficou paralítico. Nessa época, Cláudio, que era freqüentador assíduo de academia, perdeu massa muscular - na verdade, definhou. “Cheguei a pesar 45 quilos. Meus amigos me carregavam no colo”, relembra.

Mais do que carregá-lo no colo, os amigos acabaram se convertendo no principal ponto de apoio para o nutricionista em seu processo de recuperação. Com ajuda deles, Chiodo voltou a fazer musculação, quando ainda estava na cadeira de rodas.

“Uma situação como a que passei faz a gente olhar o mundo de uma maneira diferente, dar valor para aquilo que realmente importa - os amigos, a família”, diz Chiodo, que hoje leva uma vida normal. Ele ainda guarda o relógio que usava no momento do acidente. “Os ponteiros pararam no instante exato em que o carro me atingiu”, afirma.

____________________

‘Pensei que nunca mais voltaria a andar’, diz aposentada

Claudete Rocha da Silva tem 55 anos e está aposentada. Há cerca de 15 anos, época em que trabalhava como empregada doméstica, ela foi guardar uma pilha de roupas que terminara de passar e acabou esbarrando no guidão de uma bicicleta. “Foi uma pancada leve, mas meu peito começou a sangrar. Resolvi procurar um médico”, recorda-se.

Exames constataram que Claudete tinha um tumor maligno de cerca de oito centímetros de diâmetro no seio. Além de retirar a mama em uma cirurgia, ela teve de passar por dez sessões de quimioterapia (seis antes, quatro depois da operação) e 33 de radioterapia.

“Achava que não ia resistir. Acabei me isolando do mundo, não queria saber de receber visitas. Passava o dia todo trancada no quarto, esperando a morte chegar”, garante. Aproximadamente um ano depois de ser operada, Claudete conseguiu reencontrar forças para viver.

“Comecei a freqüentar reuniões na Associação Bauruense de Combate ao Câncer (ABCC), até que recuperei minha auto-estima. Algum tempo depois, resolvi me tornar voluntária da entidade”, conta.

Esse período de calmaria durou cerca de um ano. “Aí veio a metástase”, explica Claudete. A doença passou a comprometer as vértebras da doméstica. “No começo, senti que estava perdendo a sensibilidade nos dedos dos pés. O problema foi piorando cada vez mais, até que, no dia em que fui operada, eu não era capaz de me mover na cama. Só conseguia mexer a boca e os olhos. Achei que ficaria na cama para sempre.”

Nessa época, precisava da ajuda do filho mais novo até para tomar banho. “Eu precisava ser amarrada à cadeira de rodas para não tombar”, diz ela. Foram seis meses de desespero, até que um dia, como por um passe de mágica, Claudete sentiu uma espécie de formigamento nos pés. Minutos depois, já conseguia mexê-los. O grande problema para ela, então, era reaprender a andar.

“Na primeira vez, gritei bastante, pois tinha medo de cair. Eu estava igual a uma criança de colo.” Depois que reaprendeu a andar com as próprias pernas, ela fez questão de ir caminhando até o consultório médico. “Assim que entrei na sala, o médico me abraçou e disse: ‘Eu amo meu diploma’”, afirma. Dias antes de fazer a cirurgia na coluna, o mesmo profissional havia dito ao marido de Claudete que ela teria chances pequenas de voltar a andar.

Comentários

Comentários