Um boato sobre a possível municipalização da escola estadual Professora Marta Aparecida Hjertquist Barbosa, o Caic, na Vila Nova Esperança, em Bauru, revelou a diferença entre as propostas para o local dos vereadores Roque Ferreira (PT) e Roberval Sakai (PP), além da visível presença do ingrediente de “disputa” por espaço junto à comunidade daquela região.
O assunto foi tema dos parlamentares na tribuna da Câmara, durante a sessão de ontem. O pepista, que tem no bairro uma espécie de “extensão de seu gabinete”, não teria gostado de ver este “invadido” pela atuação de outro vereador. Entretanto, o petista mora na região há anos, enquanto que Sakai dirige uma igreja evangélica por lá.
A celeuma teve início quando pais de alunos e professores da instituição, que fica em um bairro de forte atuação política de Sakai, disseram que o petista era a favor da municipalização do ensino e já teria manifestado sua posição em projeto de lei. No entanto, Roque apresentou um requerimento ao prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) solicitando a possibilidade de incorporar o prédio do Caic ao patrimônio municipal.
“Devemos realizar um debate honesto sobre o que defendemos e responder a qualquer crítica verdadeira sobre nossas posições. A municipalização não passou por esse vereador. Ao contrário, esse vereador tem histórico de luta e combate contra a destruição do ensino. O que depender desse vereador, não haverá municipalização da educação. Sou um homem que não se prende a grilhões. E o único que me prende é o das minhas convicções”, disse o petista, irritado com a repercussão do boato.
Vários professores da instituição acompanharam a sessão desta segunda-feira para ouvir o posicionamento dos vereadores sobre a questão. Na semana passada, moradores chegaram a realizar protesto contra a possível transferência do ensino do Caic para a tutela do município. “Precisamos fazer essa discussão e isso não foi feito”, disse Roque. A diretora estadual do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), Susi da Silva, afirmou que não há motivos para preocupação e que o prefeito garantiu que nenhuma interferência na área de ensino será feita e ainda que é contra a municipalização.
Disputa visível
Para o vereador Sakai, o Caic precisa de melhorias. “Temos algumas solicitações feitas por vereadores, como o vereador Roque, vou também fazer outra. Respeito nosso amigo, mas vamos fazer o que for melhor para a nossa região. Eu tenho certeza que quem vai ganhar é a população. Quero deixar aqui o meu apelo. Não tenho nada contra nosso amigo. Tenho certeza que se nós nos unirmos, vamos conseguir muitas coisas.”
Apesar do discurso pacifista, quando o assunto é seu reduto eleitoral, o vereador deixa transparecer que ficou incomodado. “É interessante falaram como se eu fosse o dono do Nova Esperança. Na eleição, fui o vereador mais votado daquela região. Eu moro ali, tudo o que for necessário vou fazer. Meu bairro precisa. Mas quero trabalhar não só pelo nosso bairro, mas como para toda cidade. Precisamos unir nossas forças para ajudar o Caic. Mas por que antes da eleição ninguém foi lá trabalhar. Por que isso agora?”, indagou o parlamentar.
Sakai ainda afirmou que sempre trabalhou pelo local. “Nós fazemos a limpeza naquele lugar. Então eu não aceito uma pessoa dizer que vai mudar uma coisa que a gente está sentindo na pele, no dia a dia. Ninguém vai lá para ajudar. Nenhum vereador foi lá para fazer o que eu fiz. Pintar e limpar o Caic. Ninguém foi lá fazer isso”, alfinetou o pepista.
A instituição foi criada há 15 anos e atualmente atende 1,8 mil alunos do ensino fundamental 1 (de 1ª a 4ª série) e 2 (de 5ª a 9ª série) e do ensino médio das telesalas. O prédio pertence à União - a construção é parte do programa do Centro de Atenção Integrada à Criança e o Adolescente (Caic) do Governo Federal. A estrutura foi emprestada ao Estado para o funcionamento da instituição de ensino. Porém, o terreno onde a escola está instalada pertence ao município.
“O prédio tem que ser assumido. Enquanto ninguém decide, a estrutura vai se deteriorando”, disse o autor do requerimento. O prefeito informou ao parlamentar seu interesse em receber, por meio de doação, as benfeitorias instaladas no local, à Gerência Regional do Patrimônio da União no Estado de São Paulo a documentação necessária para abertura do processo referente à doação do prédio.