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Dormindo em um ‘campo de refugiados’

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 5 min

“O final da fila é aqui?” Um homem, com ar de desalento na voz, responde que sim. Resolvo me sentar no chão e esperar, apoiado em uma viatura do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) que se encontra estacionada no local. Logo o sono chega, e a minha cabeça começa a pender para o lado.

“O jeito vai ser dormir aqui mesmo”, penso, enquanto tento me ajeitar no cimento frio da Unidade Integrada de Atendimento Ambulatorial de Urgência (UIAA) da Bela Vista. São 4h30 da manhã de quinta-feira, hora em que os trabalhadores costumam estar na cama, aproveitando os últimos momentos de uma noite revigorante de sono.

Eu e os demais seres humanos ali presentes não temos a mesma sorte. Para conseguir atendimento médico, precisamos contrariar a natureza de nossa espécie e adotar o relógio biológico dos morcegos. No sistema público de saúde de Bauru, só consegue pronto-atendimento quem troca o dia pela noite.

Na quarta-feira, eu já havia passado por situação parecida, no núcleo do Centro, apelidado pelos bauruenses de “Postão”. A idéia da reportagem era mostrar as falhas estruturais do sistema de saúde do município. Apenas com o documento de identidade nas mãos, eu tentaria ser atendido na unidade às 8h. Enquanto eu aguardava na fila do “Postão”, consegui que alguém fosse até o Núcleo de Saúde do Jardim Redentor e garantisse para mim uma vaga para o período da tarde.

Com isso, provaríamos que não há qualquer interligação entre as diferentes unidades de saúde da cidade. Na fila do “Postão”, as horas custam a passar, e as pessoas tentam fazer o tempo andar mais depressa reclamando de tudo e de todos.

“É um milagre a fila estar pequena. Acho que o pessoal não sabia que viria aqui hoje”, diz um homem, aparentando uns 50 anos de idade. Em seguida, ele emenda: “Pode ficar tranqüilo, pois quando começarem a atender, o pessoal lá de trás irá entrar na nossa frente. Neste lugar, as coisas funcionam igual na Bíblia: os últimos são sempre os primeiros.”

De fato, às 7h, quando uma funcionária começa a distribuir as senhas para atendimento, os primeiros a ser chamados são os pacientes agendados (que participam de programas de controle ou prevenção a doenças). Como a maioria deles se encontra no final da fila, as pessoas que haviam chegado mais cedo à porta do núcleo de saúde começam a reclamar.

“Mãe!” Desesperado, um menino chora aos berros ao lado da uma mulher caída no chão. Ela está grávida, e as enfermeiras apressam-se em levá-la para dentro do núcleo de saúde.

“Isso está me cheirando a golpe. Pode apostar que agora ela passa na frente de todos nós”, sugere um homem. Entre os freqüentadores dos núcleos de saúde de Bauru impera a lógica perversa do mercado, segundo a qual quem chega na frente merece ser atendido primeiro.

A funcionária passa quase uma hora distribuindo as vagas entre os pacientes agendados. Depois, ela volta para o começo da fila e passa a entregar as senhas para aqueles que buscam atendimento imediato. No balcão, como esperado, basta entregar o RG para a atendente e aguardar.

“Você já tem cadastro aqui?”, pergunta a balconista

“Não, é a primeira vez que eu venho”, respondo.

Ao ser questionado sobre meu endereço, invento um local nebuloso nas quadras iniciais da rua Quinze de Novembro. Mais tarde, no Jardim Redentor, a mentira seria mais deslavada ainda. Disse à balconista que eu morava na quadra 9 da rua Santo Antônio.

“Qual bairro?”, perguntou-me ela.

“Acho que é Parque Paulista, não é?”

Minha sorte é que, naquela região da cidade, não faltam ruas com nomes de santos. Fique registrado, porém, que o franciscano Antônio é um dos poucos que não integram o panteão viário do Jardim Redentor. Na verdade, a referida rua fica no Jardim Bela Vista, do outro lado de Bauru.

Tanto no Redentor quanto no “Postão”, a mentirinha inocente vingou, e consegui passar pelo médico. No Núcleo de Saúde do Centro, a consulta durou menos de cinco minutos. Entro na sala e o médico logo dispara: “Qual o problema?”

Reclamo de uma tosse que já vem me incomodando há algum tempo. O médico coloca o estetoscópio em meu peito e pede para que eu respire bem fundo. “Olha, vou pedir que você faça uma chapa do pulmão e outra do coração. Depois que os exames estiverem prontos, você volta aqui para me trazer o resultado. Até logo”, diz o médico.

“Como assim? E meu problema, doutor?”

“Meu filho, não tenho como dizer o que você tem se não tiver em mãos os resultados dos exames! Passe bem...”

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Tosse sem solução

No Núcleo de Saúde do Redentor, volto a reclamar da tal tosse. Desta vez, porém, a médica diz que não há nada de errado com meu aparelho respiratório. “Na certa, é alguma alergia”, explica ela. Volto para a casa com dois frascos de Polaradex para a tosse, além de duas cartelas de Algy-Flanderil, um antiinflamatório. Durante a consulta, resolvi inventar uma dor nas mãos, que a médica suspeitou ser fruto de alguma tendinite ou mesmo de esforço repetitivo.

Antes receber um atendimento ruim do que não ser atendido. Na UIAA da Bela Vista, cenário inicial desta reportagem, nem mesmo médico para me consultar havia.

“Será que tem como agendar?”

“Não me faça perguntas difíceis, moço. Se seu problema é sério, acho melhor você voltar na semana que vem e tentar conseguir uma desistência com o clínico-geral”, recomenda a balconista.

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