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Era do medo leva sociedade ao divã

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 6 min

Agendar uma entrevista com um profissional que trata da mente humana é uma tarefa das mais difíceis. A justificativa é sempre a mesma: agenda lotada. Para falar com psicólogos, psiquiatras e psicoterapeutas só se for uma conversa rápida por telefone entre uma consulta e outra ou durante o horário do almoço. O tempo é curto para atender a demanda de pacientes. É uma prova inequívoca de que a sociedade está emocionalmente doente. E o diagnóstico é quase sempre o mesmo. As pessoas estão adoecendo por causa do medo.

“Posso dizer com certeza que tem aumentado muito o número de pessoas com algum tipo de medo, pânico ou fobia. Até posso afirmar que estamos vivendo a era do medo”, observa Regina Furigo, diretora do Instituto de Psicologia Junguiana de Bauru e coordenadora do curso de psicologia da Universidade do Sagrado Coração (USC). “Digo isso por experiência própria e pelo que tenho ouvido de colegas de profissão e lido em artigos científicos”, complementa.

A constatação é confirmada pela psiquiatra Elaine Lúcia Dias de Oliveira. Na opinião dela, existe uma cultura do horror que está deixando as pessoas amedrontadas e inseguras. “Com certeza, elas estão adoecendo por causa disso”, afirma. Segundo ela, muitos estão sofrendo por projeção, ou seja, ficam com medo de que alguma desgraça que está acontecendo em locais distantes possa afetá-la também. “As pessoas ficam deprimidas por um sofrimento que não faz parte da realidade dela”, explica. Algumas pessoas ficam projetando o mal na vida delas.

Para Regina Furigo, são vários os motivos que têm levado a sociedade a sentir medo exagerado. Um deles tem a ver com questões biológicas. Existem alguns tipos de doenças que são hereditárias. A predisposição ao medo, pânico ou fobia é um deles. “Alguns indivíduos são predispostos a desenvolver certas patologias, principalmente quando encontram um meio favorável”, diz.

Outro motivo apontado por ela como desencadeador de tanto medo é a competitividade. Regina lembra que à medida em que o homem foi “evoluindo”, ele deixou de encarar seu semelhante como parceiro e passou a vê-lo como um concorrente. “Antes eram companheiros de jornada. Eles dividiam a caça. Não tinham o costume de acumular alimentos porque estragava”, relata. Com o tempo, tornou-se possível acumular bens e o companheiro transformou-se em adversário.

Isso porque quanto mais bens a pessoa acumula, mais poder ela tem. E para se manter com esse poder, ela tem de cuidar do emprego e da sua riqueza. É preciso estar sempre atento. Segundo Regina, esse estado de alerta constante está provocando um desequilíbrio emocional nos indivíduos.

Quando saímos de casa, ficamos preocupados em ser assaltados. Quando estamos no trânsito, corremos o tempo todo o risco de alguém cruzar a nossa frente e provocar um acidente. No trabalho, temos de estar atentos contra qualquer falha porque é o nosso emprego que está em jogo.

“Nós vivemos constantemente em estado de alerta. Nosso organismo não relaxa”, diz Regina. “Todos esses fatores atemorizam as pessoas. Elas ficam se perguntando ‘e se eu não conseguir isso ou aquilo’. É o medo do fracasso. Nós vivemos a sociedade do sucesso. Somos cobrados o tempo todo por isso. Se não fazemos sucesso não somos nada”, sentencia.

De acordo com ela, é diante dessa cobrança que começam a aparecer os transtornos da ansiedade, que são o medo, o pânico e as fobias. São fatores que corroem o organismo por dentro porque ele passa a produzir mais hormônios, mais suco gástrico. Na luta para encontrar o ponto de equilíbrio e um pouco mais de paz e qualidade de vida, as pessoas, cada vez mais, estão recorrendo ao divã.

Todo mundo tem medo. Trata-se de um sentimento natural e necessário. Segundo Regina, ter medo é sábio. “Quem não tem medo é prepotente, que se julga acima do bem e do mal e se esquece que ele é mortal. Na medida certa, sem exageros, o medo protege”, frisa. De acordo com ela, é importante não deixar o medo dominar nossa mente. “Ele tem de ser um escudo e não seu dominador.”

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Tão longe, tão perto

Gripe suína, crise econômica mundial, aquecimento global, guerras. O noticiário está cheio de notícias alarmantes. Para a psiquiatra e psicoterapeuta Elaine Lúcia Dias de Oliveira, a exploração excessiva de notícias ruins está amedrontando as pessoas. Às vezes, o mal está a milhares ou milhões de quilômetros de distância e mesmo assim causa preocupações, como se os perigos que existem em qualquer parte do mundo estivessem imediatamente ligados à pessoa. O fato de algumas pessoas em Bauru estarem preocupadas em comprar máscaras cirúrgicas para se proteger do vírus da gripe suína é um exemplo perfeito disso.

“Nós vemos no noticiário o namorado que mata a namorada por ciúmes e aí aumenta o número de garotas que ficam com medo de que isso aconteça com elas porque também têm namorados ciumentos”, relata a psiquiatra. Outro fato constatado por ela na clínica é que os pais sempre ficam cheios de temor quando vêem no noticiário que filhos estão matando pessoas da família. “Os pais procuram os consultórios preocupados porque o filho é muito nervoso, irritado e agressivo e ficam com medo de que ele possa fazer a mesma coisa”, conta Elaine. “Isso é constante”, afirma.

De acordo com ela, essa exposição exagerada de fatos negativos cria uma sensação de insegurança. “Muitas vezes eu tenho de falar para as pessoas pararem de ver noticiários em razão do estado crítico que elas chegam ao consultório”, revela.

Elaine aponta ainda a “artificialização da vida”, ou seja, a valorização de coisas que não correspondem a necessidade básica do ser humano como motivo das pessoas estarem adoecendo emocionalmente. A “artificialização” tem a ver com o materialismo, consumismo, imediatismo. Segundo a psiquiatra, algumas pessoas lidam muito mal com a frustração. “Isso significa que muitos não sabem planejar e esperar. Isso provoca um estado constante de insatisfação, de infelicidade criada pela busca por coisa que não são indispensáveis”, comenta.

A própria sociedade impõe isso a si mesma. E as pessoas ficam com medo de não atender às expectativas. “Isso tem a ver com aquela premissa de que a pessoa vale pelo que ela tem e não pelo que ela é”, diz Elaine. “Para eu existir tenho de ter e tenho de parecer ser, existe um grande culto às aparências”, afirma.

O culto às aparências significa um culto à juventude, que é passageira. Então, temos de correr contra o tempo, temos de fazer tudo agora, senão não vai dar tempo. Aí vem aquela sensação de medo, de que o tempo está passando rápido demais e não vamos conseguir.

“Vivemos expectativas por coisas que poderíamos ficar sem. E nos esquecemos de investir naquilo que realmente vai nos manter em pé. Tem gente que sofre por motivos que não mereceriam esse sofrimento”, conclui.

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