A mulher teve que aprender a conciliar o trabalho fora de casa com as tarefas domésticas e a maior de todas as designações: a qualidade na criação e educação dos filhos. Nesse contexto, surgem dúvidas e incertezas de como educar corretamente. Hoje, o que prevalece é a questão da dificuldade das mães em lidar com a falta de tempo. Não especificamente pelas tarefas realizadas longe do lar, mas por ter que administrar muitas coisas ao mesmo tempo, elas se sentem sobrecarregadas e culpadas quando algo dá errado no seio da família.
Grande parte das mães trabalham fora para manter a casa e não apenas por realização profissional. Elas ajudam financeiramente a família e as gerações de homens filhos de mulheres que não trabalharam fora, agora têm que lidar com uma esposa trabalhando. Essa é uma realidade conflitante porque eles ainda têm muito impregnada a questão da dominação masculina e da mulher em casa, e isso acaba influenciando na educação dos filhos.
De acordo com a psicóloga clínica, especialista em família e casal, Maria Ivone Marques, os homens que têm dificuldades em aceitar a mulher trabalhando e ajudando no orçamento doméstico, acabam não contribuindo com as tarefas caseiras e na educação mais ativa dos filhos, embora suas companheiras contribuam com as despesas, o que, teoricamente, seria função masculina. “Em muitos casos, elas ficam sobrecarregadas com tantos afazeres e sentem a cobrança desses maridos em relação à sua presença em casa e com os filhos. Essas mães acabam se sentindo culpadas pelas cobranças e se ‘arrebentam’ para compensar isso”, explica Marques.
Segundo a psicóloga, a superproteção das mães é um dos fatores que mais vêm gerando conflitos e problemas no relacionamento mãe e filho.
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Para melhor educar
Célia Roccio Garcia Lopes é psicóloga e mãe de Camila, 19 anos, Gabriel, 16 anos, e Beatriz, 12 anos. Ela conta que a educação dos seus filhos ocorre de acordo com a realidade do mundo atual, mas baseia-se nos princípios que aprendeu com os pais. “Procuro um ponto de equilíbrio entre a educação que tive e as necessidades do mundo de hoje”. A mãe do trio de adolescentes acredita que a vida está nas mãos dos filhos e eles é que vão decidir como vivê-la. Porém, os caminhos são dados e ensinados. Valores como honestidade, respeito e responsabilidade são transmitidos diariamente.
Mulher ativa, Célia trabalha fora, em casa e cuida da educação dos filhos sem a presença física do marido durante a semana, já que ele se ausenta da cidade devido o trabalho.
A sobrecarga de atividades faz com que muitas mulheres se sintam ausentes da vida dos filhos e os protejam exageradamente, na tentativa de suprir a ausência do pai, durante a semana, e a sua própria, devido ao trabalho. Maria Ivone afirma que o importante não é a quantidade de tempo passado ao lado dos filhos e sim a qualidade desse tempo, ou seja, como ele é aproveitado e direcionado. “Recebo mães e filhos com problemas de relacionamento e dificuldades na educação que passam grande parte do dia juntos. Isso prova que, a mãe trabalhar fora, não gera problemas na educação do filho e sim como essa educação é feita e pensada”.
Célia e os filhos são exemplo de que um bom convívio e educação de qualidade não estão relacionados, necessariamente, ao fator tempo.
Ela trabalha, eles estudam e têm outras atividades durante o dia. Mas procuram aproveitar ao máximo o tempo em que estão juntos. Uma família alegre e amiga com liberdade para conversar sobre todos os assuntos, mas sem libertinagem. Assim, a psicóloga define sua relação de amizade com os filhos.
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O que eles pensam
Quanto à educação que recebem em casa, Camila, Gabriel e Beatriz são unânimes: às vezes, chateia ouvir sermões e orientações da mãe, mas concordam e sabem da necessidade dessas regras e limites para seu crescimento saudável. Responsabilidade com horários, escola e deveres diários são as maiores cobranças de Célia com os filhos.
Camila é a mais velha e sente que já tem mais autonomia. “Quando mais nova, eu tinha horários mais rígidos para voltar para casa quando saía. Mas, como sempre respeitei e aprendi o que minha mãe me ensinou e agora estou com 19 anos, percebo que ela me dá mais espaço para decisões. Acho importante tudo o que ela ensina. Isso é uma forma de carinho e amor. Porém, ela poderia não ficar tão em cima com os conselhos”.
Já Gabriel, 16 anos, acha que as cobranças da mãe são maiores sobre ele, principalmente com os horários de volta para casa. E a caçula Beatriz, 12 anos, não gosta de ouvir broncas, mas sabe que isso é coisa de mãe e que faz parte de uma boa educação.
Célia entende que os filhos podem ver os limites como cobrança. Mas ela sabe que, quando eles se tornarem adultos e sentirem as grandes responsabilidades da vida, vão entender o quanto é importante ter compromissos com horários, dar “satisfação” para alguém e respeitar o próximo, seja no trabalho, em casa ou no social. “Tento passar para eles aquilo que eu acredito porque vejo, como mãe e como psicóloga, que está faltando limites para os jovens hoje. E a referência precisa vir dos pais”, afirma.
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É preciso saber quem comanda a família
Paira uma concepção no relacionamento entre mães e filhos de que limite é uma coisa ruim. Ao contrário, limite é amor e afeto.
Maria Ivone Marques, psicóloga clínica especialista em família e casal aponta que, com regras e limites, a criança e o jovem se sentem amparados e cuidados. Quando muito soltos, com poder de tomar decisões além do que a sua idade permite, eles se tornam inseguros, sozinhos e desamparados. “Recebo crianças e adolescentes no consultório com esse problema. Quando superprotegidos, ficam com a auto-estima baixa e a mãe acha que aquilo não é normal porque ela faz de tudo pelo filho. Mas o filho precisa de limites, ele sente a necessidade de saber quem ‘comanda’ a relação e a casa.”
Para ilustrar a validade e a confiança que os limites podem gerar no relacionamento entre mães e filhos, Célia Roccio Garcia Lopes relata um pequeno, mas bonito exemplo de seus filhos. Ela se recorda que sempre os educou para não tomar refrigerantes, mesmo tendo sempre na geladeira, e sim sucos naturais durante a semana. E, certa vez, seu filho do meio, Gabriel, sentiu vontade de tomar refrigerante no meio da semana e ela estava viajando a trabalho. Então, ele ligou no celular da mãe e disse que estava com vontade de tomar a bebida e se podia. “Eu deixei, claro. Achei lindo esse respeito dele pelas coisas que ensinei”, acrescenta.
Nem repressiva demais, nem permissiva. Maria Ivone ensina que a relação mãe e filho precisa ser bem delineada. A mãe pode e deve ser uma amiga, mas, antes de tudo, deve ser mãe, cuidar, dar duras e chamar a atenção quando necessário. “Esse papel precisa ser preservado e, em muitas casas, está se perdendo”.