Bairros

Você realmente sabe onde mora?

Wagner Carvalho
| Tempo de leitura: 4 min

Se alguém lhe perguntasse agora se você sabe onde mora, provavelmente a sua resposta seria positiva. Entretanto, muitas pessoas que acreditam morar em uma determinada vila, jardim ou parque, na verdade reside mesmo em outro. A divisão dos loteamentos que deram origem a diversas nomenclaturas nos bairros é o que confunde moradores, por exemplo, do Jardim Bela Vista.

Essa região é composta por dezenas de pequenos loteamentos, conhecidos como jardins, vilas e parques, mas a maioria das pessoas não sabe disso. Esses moradores simplesmente preferem dizer que residem na Bela Vista, quando naquela região este é apenas mais um dos muitos loteamentos residenciais existentes.

Quem reside no Jardim São João da Bela Vista, no Jardim Marise, Vila Quaggio ou na Vila Camargo, uma das maiores daquela região, quase nunca se lembra desses nomes na hora de abrir um crediário e colocar seu endereço. Por ser um dos primeiros loteamentos da região, todos os moradores dos bairros adjacentes adotaram o Jardim Bela Vista como endereço preferencial.

Até mesmo nas correspondências eles se esquecem que moram na Vila Elydia, por exemplo, e colocam no remetente Jardim Bela Vista. Alguns moradores até têm conhecimento do local exato onde residem, mas como a vizinhança resolveu generalizar e “batizar” toda aquela região de Bela Vista, eles seguem a maioria.

De acordo com Edmilson Queiroz Dias, arquiteto e professor do curso de arquitetura da Universidade Paulista (Unip), batizar uma região da cidade com o nome do loteamento mais antigo não é privilégio dos moradores do Jardim Bela Vista e adjacências. Dias, que também dirigiu por duas vezes a Empresa de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb) e foi secretário de Obras do município uma vez, conhece bem essa realidade.

Ele cita o caso das regiões da Vila Falcão e do Jardim América, também compostas por diversos loteamentos de nomes de diferentes, mas que a população - e principalmente os moradores do local - resolveu generalizar e batizar pelo nome do loteamento mais antigo.

Mercado

Dias explica que às vezes o que manda é o mercado imobiliário, que para valorizar toda uma região, generaliza e passa a chamá-la pelo nome do loteamento mais valorizado. “Te chama a atenção conhecer um imóvel no Jardim Santo Antônio ou no Jardim Higienópolis? Provavelmente, ao ouvido de quem procura um imóvel para comprar, a segunda opção poder ser mais agradável, mas é importante lembrar que a primeira opção está localizada na mesma região. Na verdade, o que divide os dois loteamentos são apenas ruas e avenidas, mas a segunda alternativa é mais “popular” do que a primeira opção.

Para o município, a confusão existe apenas “na cabeça” dos moradores. De acordo com Franciluz Mariano da Malta, diretora da Divisão de Diretrizes e Normas da Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan), a divisão dos loteamentos é feita de maneira correta, e para o município não existe esta ou aquela região, e sim a vila, jardim ou parque que, na verdade, é o nome escolhido para um loteamento quando é lançado.

Marcos Aurélio Cozin, proprietário de uma drogaria no Parque Altos Sumaré, conta que nunca usou nem para correspondências ou para compras de produtos o nome correto do local. Em frente a seu estabelecimento foi colocada uma placa que sinaliza a divisão de dois loteamentos: o Parque Altos Sumaré e o Jardim Araruna. “Na verdade, para todos os moradores daqui tudo isso é Parque Vista Alegre”, explica. De acordo com o comerciante, é difícil encontrar alguém que informe o nome correto do local onde reside, pois todos dizem que vivem no Vista Alegre.

Uma questão de família

Dos atuais 416 loteamentos registrados no município, a maior parte recebeu o nome do seu loteador ou o sobrenome da família. É o caso das vilas Cardia, Perroca, Pacífico e Falcão ou dos jardins Silvestre, Pagani e Faria. Todos esses loteamentos, na época de seu lançamento, foram “batizados” com o nome ou sobrenome de seus antigos proprietários.

De acordo com o professor e arquiteto Edmilson Queiroz Dias, até pelo menos o final da década de 60, batizar os bairros com o nome do proprietário da terra a ser loteada ou mesmo com o sobrenome da família era uma tradição. “Como a maior parte dos loteamentos existentes em Bauru são anteriores a esse período, daí a existência de uma grande quantidade de jardins, vilas e parques que imortalizam seus antigos proprietários”, explica.

O professor conta que as mudanças começaram a partir do início da década de 70, com a chegada de empresas especializadas em lançar loteamentos e das técnicas de marketing adotadas para comercializar com mais rapidez os lotes colocados à venda. Batizar o loteamento com o nome da família ou do antigo proprietário da terra deixou de ser uma prática na cidade.

“Nesse momento começou a se “batizar” esses loteamentos com nomes que possuíam apelos comerciais mais fortes. Os jardins Europa e América são bons exemplos, assim como o condomínio Shangri-lá, que recebeu esse nome por ser a concepção ocidental do paraíso terrestre”, explica.

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