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Entrevista da semana: Jorge Guerra

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 9 min

Na ‘guerra’ do esporte, ele é vencedor!

Para ele, o basquetebol é profissão, realização e paixão e, a família, é o grande porto seguro!

Não importa se nas quadras como jogador ou do lado de fora como técnico. Para definir o valor, a garra e a competência de Jorge Guerra, o Guerrinha, basta lembrar das conquistas da Seleção Brasileira de Basquetebol. Afinal, dos grandes jogos com ele em quadra a equipe brasileira conquistou quatro sul-americanos, três mundiais, duas olimpíadas e dois pan-americanos, feitos que poucos atletas realizaram.

A carreira brilhante de Guerrinha começou cedo. Amante dos esportes, aos 15 anos de idade ele já se destacava no basquete da equipe adulta de Franca, cidade onde nasceu, foi criado e viu sua paixão e talento pela modalidade crescerem.

Como técnico do GRSA/Itabom/Bauru, Jorge Guerra impulsionou o time a conquistar vitórias e a se destacar no cenário do basquetebol nacional. Foi também em Bauru que ele criou fortes vínculos de amizade tanto no esporte quanto na vida pessoal.

Homem inteligente e de palavras fáceis, Guerrinha já viajou por 50 países em nome do basquete e da ânsia por cultura e conhecimento. Seus sonhos para quando deixar o esporte profissionalmente é dar continuidade às viagens, morar em uma praia e trabalhar com projetos sociais envolvendo o basquetebol.

Planos futuros, princípios humanos, amor, dedicação e admiração pela família são alguns dos temas abordados por Guerrinha. Leia os principais trechos desta entrevista.

JC - Onde você nasceu e cresceu? Guerrinha - Sou da cidade de Franca, a única cidade do País onde o primeiro esporte é o basquete, e não o futebol.

JC - Ter nascido em Franca influenciou o ‘menino Guerrinha’ a se apaixonar pelo basquete? Guerrinha - Acredito que nasci no lugar certo, perto do Clube dos Bagres, onde surgiu a formação do basquetebol francano. Eu morava a duas quadras do clube e ficava por lá o dia todo. Ter facilidade para o esporte e ‘tudo na cidade’ girar em torno do basquete me levou até ele, sim. Em Franca, costumamos dizer brincando que, quando você nasce, é só jogar na parede. Se ficar, será jogador de basquetebol, se cair, vai ser sapateiro. Eu fiquei na parede.

JC - Quando você sentiu que o esporte seria parte fundamental na sua vida? Guerrinha - Desde muito cedo. Tinha uns 5 anos quando passei a freqüentar o Clube dos Bagres e a praticar várias modalidades. Comecei com a natação, judô e também adorava futebol. Meu pai tinha uma fábrica de chuteiras e meus irmãos quase foram profissionais desse esporte. Eu até tentei jogar futebol nas categorias de base, mas já tinha facilidade com o basquete e, aos 15 anos, já estava disputando jogos regionais e abertos pela equipe adulta de Franca.

JC - Alguma vez você se imaginou em outra profissão? Guerrinha - Eu sou multidisciplinar e faço várias coisas ao mesmo tempo. Poderia ser gerente de logística ou trabalhar com administração, pois tenho uma facilidade muito grande nessa área. Outra coisa que gosto é do lado psicológico, inclusive trabalho bastante isso com os jogadores, claro que não como um profissional da área faz. Adoro cozinhar e até poderia ter um restaurante. Esse é um dos meus projetos.

JC - Quais são os seus outros projetos futuros? Guerrinha - Meu plano futuro é morar em uma praia e ter uma vida bem simples. Quero caminhar pela areia e continuar no basquete e no esporte através de projetos sociais e não profissionalmente. Espero realizar esse projeto em breve. Tudo o que sonho faço virar realidade.

JC - Você pretende finalizar sua carreira esportiva logo? Guerrinha - Eu projeto mais uns dez anos para minha carreira como técnico competitivo. Depois vou começar a pensar a vida de uma forma diferente. Me dedico ao esporte profissional desde os 15 anos de idade e nunca tive final de semana, feriados e datas como aniversário, por exemplo. É uma doação muito grande de tempo e, geralmente, é diferente de todos da família e amigos.

JC - Esse pode ser considerado o lado ‘ruim’ da profissão? Guerrinha - Sem dúvida. Você acaba ficando ausente e longe de todos da família. Eu, por exemplo, não me prendo a datas para presentear porque posso estar ausente. Passei pouquíssimas datas especiais com minha família em 25 dos 35 anos de carreira no basquete profissional adulto.

JC - Como você definiria sua carreira? Guerrinha - Foi um processo. Participei de jogos regionais, abertos, paulistas, brasileiro. Foram 1.355 jogos pela cidade de Franca, 22 anos pela mesma equipe. Conquistei cinco campeonatos brasileiros, cinco paulistas, cinco sul-americanos e um vice-campeonato mundial, isso como jogador. Na seleção foram quatro sul-americanos. Participei de três mundiais, duas olimpíadas, um pan-americano como jogador e outro como assistente. Foi uma carreira gratificante como jogador e como técnico. Em Bauru fomos campeões do paulista, carioca, brasileiro, enfim, muitas conquistas.

JC - Você fez estágio como técnico nos Estados Unidos, certo? Guerrinha - Sim. Passei quatro meses fazendo estágio em uma equipe da NBA. Acompanhava todas as reuniões e treinamentos, diariamente. Acompanhei toda a estrutura administrativa do time, que é uma parte que eu gosto muito.

JC - Sua concepção sobre o basquetebol mudou depois do estágio? Guerrinha - É uma realidade diferente. É mais ou menos a comparação da realidade estrutural do nosso país com a estrutura dos Estados Unidos. Eles são mais avançados e desenvolvidos. É como se estivessem quase prontos e nós, iniciando. Aqui, a população tem paixão pelo esporte, lá é educação. As crianças aprendem as modalidades como um todo já na escola. Por exemplo, as escolas de ensino médio lá têm uma estrutura esportiva melhor do que a nossa do GRSA/Itabom/Bauru. Aqui, o esporte social é raro. O poder público pouco se compromete com a educação esportiva. Viajo há muito tempo fazendo intercâmbio em outros países e percebo que o esporte no Brasil tem muito o que evoluir.

JC - Você conheceu muitos países ao longo desses anos? Guerrinha - Eu tive a felicidade, através do basquete, de poder viajar por mais de 50 países nos cinco continentes. Sou muito observador. Aprendi muito em cada uma dessas viagens e trouxe tudo isso para minha profissão.

JC - Qual foi a viagem que mais marcou você? Guerrinha - Acho que para a Austrália porque ela possui um pouco do nosso clima tropical, mas com a organização inglesa. Embora não tenha o lado latino do brasileiro, que eu acho maravilhoso, é mais tropical que os Estados Unidos e que os países europeus. Tenho muitas histórias das viagens que fiz.

JC - Qual é a primeira que te vem à memória? Guerrinha - Tenho muitas lembranças de quando fomos até Angola. É um país pobre, mas de um calor humano imenso, bem parecido com o dos brasileiros. Os jogos estavam marcados e, às vezes, precisavam ter os horários alterados porque não havia energia elétrica disponível no momento de tão pobre que é o país. Já na Austrália, a tecnologia é tanta que a quadra de basquete era transformada, em meia hora, em quadra de vôlei, por exemplo. Para se ter uma idéia das diferenças dos países, dentro dos vestiários das equipes de NBA, nos Estados Unidos, há uma estrutura perfeita com ginásio de treinamento e academia.

JC - Viagens são paixões em sua vida? Guerrinha - Sim. Vou querer viajar quando tiver tempo, mas de forma diferente de como faço hoje. Pretendo chegar em um país e morar por três ou quatro meses, por exemplo. Conheço muitos lugares, mas não profundamente. Sempre viajei pelo esporte e ficava em concentração. Não foram passeios de turista normal, mas deu para aprender muita coisa. Ainda vou conhecer a Nova Zelândia e o Egito. Sempre gostei muito de história e geografia e acredito que viajar é uma maravilhosa forma de adquirir cultura e conhecimento.

JC - Você teve a oportunidade de conhecer muitas culturas. Fala quantas línguas? Guerrinha - Tenho muita facilidade com o espanhol, falo e entendo fluentemente. Já com o inglês, eu tenho uma certa dificuldade, mas até que falo, não fluentemente como deveria. É até engraçado: antes de viajar para aos Estados Unidos eu achava que falava fluentemente o inglês, mas quando cheguei lá e passei a viver como nativo, percebi que não falava e não entendia nada.

JC - Quais foram as grandes emoções da sua vida? Guerrinha - Disputar uma olimpíada não tem explicação. Até me emociono ao falar. A coisa mais linda que existe é a vila olímpica. O máximo da emoção que pode existir para quem faz esporte é chegar até a vila e estar em contato com os melhores atletas do mundo, de todas as modalidades esportivas e isso em coisas rotineiras como tomar café da manhã e almoçar. É indescritível. A sensação de estar no desfile de abertura e de encerramento é muito grande.

JC - Você criou vínculos fortes no esporte? Guerrinha - Sim. Aqui em Bauru, inclusive, eu tenho grandes amigos. Acho até que tenho mais amizades aqui do que em Franca, onde vivi por mais de 30 anos.

JC - O tempo livre de um atleta é limitado. Quando jovem, você saía e se divertia com amigos? Guerrinha - Não tive muitos amigos. Terminava uma temporada e já tinha outros compromissos com o esporte. Nunca fui de baladas até o amanhecer. Fui criado em uma época em que eu era atleta. Dez horas da noite já estava dormindo para acordar cedo e treinar. Fui um atleta e não um jogador. Tenho poucos amigos, mas são aqueles que você passa 20 anos sem ver e, quando encontra, a intimidade é tanta que parece que nos vimos ontem.

JC - O que faz nas poucas horas vagas? Guerrinha - Sou um homem simples. Gosto de cozinhar e estar perto das pessoas que gosto, como a família e os amigos.

JC - O esporte te trouxe independência financeira? Guerrinha - Não fiquei rico, mas posso dizer que tenho uma qualidade de vida muito boa. Fui uma pessoa que sempre teve uma estrutura boa e nunca fui de esbanjar dinheiro. Acredito que a qualidade de vida não está na parte material e sim na forma como você vive.

JC - Quais foram as maiores vitórias da sua vida? Guerrinha - Acho que poder ser conhecido, reconhecido e continuar a ter valores que aprendi com meus pais. Ser transparente, honesto, justo e amigo são princípios que algumas pessoas mudam para se realizarem profissionalmente. Eu não mudei. O que sou pessoalmente, sou na profissão. Tenho valores muito sólidos que aprendi com meus pais e com a vida. Acho que isso é uma grande conquista.

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