Antigamente nós fazíamos boas pescarias, eu digo nós porque sempre a gente ia acompanhado de dois ou três pirangueiros e o nosso lugar preferido era a barragem de Bariri, uns 100 metros abaixo da comporta onde tinha um toco. Mas quando íamos para lá era preciso madrugar, pois o lugar era muito disputado pelos pirangueiros da região.
Eu e o companheiro Nato sempre pescávamos naquele toco. Vou falar um pouco sobre o pirangueiro Nato. Ele era e é ainda uma fera com sua vara de bambu nas barrancas do rio, não perdia viagem, sempre vinha com o seu samburá cheio de piaparas e piavas.
Como eu estava a contar, naquela tarde nublada e de garoa fria, eu e o Nato estávamos a pescar no tal toco. Levamos bastante quirera para cevar, e o que o Nato fisgou de piapara naquele dia é uma coisa de louco. No fim da tarde, seu samburá estava cheio de piaparas e piavas, eu acho que ele fisgou umas 22 ou mais piaparas e piavas, e cada uma pesava um quilo e meio.
Eu também fisguei boas piaparas, mas não igual ao Nato, e o arranque das fisgadas das bichonas era tão violento que, quando a linha não aguentava e quebrava, a gente caia para trás.
Nós voltamos lá diversas vezes, mas igual àquela tarde, jamais. Passarão os anos e os peixes sumirão dos rios, a pesca predatória foi demais. Não me convide para pescar de rede e tarrafa que eu não vou, não tem coisa melhor para a adrenalina subir do que fisgar um peixe na vara manual.
Florindo Martins é pescador de barranca dos rios da região e contador de histórias.