O Caminho de Peabiru não foi o único a passar pelas imediações de Botucatu. Nas proximidades do posto de combustível Maristela, no quilômetro 198 da rodovia Castello Branco, já em Pardinho, havia um cruzamento de estradas. A transcontinental saía de São Vicente, passava pela região e seguia para Calhau, no Peru.
“Depois havia outra que vinha do Sul do Rio Grande do Sul. Ia levando burros, mulas até o Rio Grande do Norte”, diz Hernâni Donato ao citar outra rota, bem mais recente, utilizada entre 1.700 e 1.800. Uma terceira ainda levava o viajante até o Mato Grosso do Sul. De acordo com o historiador, neste entroncamento funcionou algo denominado como tampu, uma estação de parada. Os viajantes paravam para descansar e alimentar as lhamas.
“Era uma construção de dois quartos, dois cômodos. Aquela igrejinha ali no Maristela (situada no interior de um condomínio fechado próximo ao estabelecimento) era um tampu”, reitera o especialista na rota. Mas isso já no tempo de grande exploração da prata. “Nesse entroncamento, os jesuítas foram grandes colonizadores. Botucatu foi uma fazenda jesuítica exatamente em cima do Peabiru. Já tentei acionar os prefeitos locais para colocarem um monumento ali, mas não ligaram para isso, não deram voto”, comenta Donato.
Os jesuítas receberam uma doação e estabeleceram uma fazenda na região, que também transformou-se em ponto de referência aos viajantes, séculos mais tarde em relação aos tampus, reitera o jornalista, escritor e pesquisador Anthemo Feliciano. Por conta da fazenda, um dos caminhos foi batizado como Santo Inácio, como tudo na região. De acordo com ele, quando os jesuítas foram expulsos do local pelo Marquês de Pombal, deixaram o gado, que tornou-se selvagem. Eis, então, a origem dos Baguás, conta.
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Pelo rio
O Caminho de Peabiru seguiu um trajeto fluvial. “O ramal de Botucatu acompanhava o rio Tietê, cruzava o Paraná e chegava a Iguatemi”, comenta o historiador Hernâni Donato. Ele cita as três faixas que saiam de Botucatu, apontadas por Luiz Caldas Tibiriçá. Uma ia em direção ao Sul, até o rio Tibagi, no Paraná. Outra seguiria até o rio Miranda, no Mato Grosso do Sul. Um terceiro, próximo ao rio Tietê, iria ao rio Piqueri que, por sua vez, seguiria em direção ao rio Miranda.
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Potosí
Muita riqueza passou pelo Caminho de Peabiru, inclusive pelo ramal de Botucatu, séculos após sua criação. Por volta de 1.600, lhamas lotadas de prata vinham do Potosí (montanha boliviana de mais de quatro mil metros de altura repleta do metal) para a região. Em seu auge, Potosí chegou a ter 1.400 minas e a transformar a cidade existente no entorno na mais rica do mundo.
“Esse ramal de Botucatu foi um ramal de exceção. Gente rica da Europa ia morar em Santana do Parnaíba. Lá transformava-se em bandeirante e, por esse ramal, ia ao Potosí. Era um caminho, digamos, disfarçado. Não era legalizado. Para o rei interessava que houvesse essa circulação, mas não interessava que fosse público”, comenta o historiador Hernâni Donato.
De acordo com ele, índios escravos morriam na mineração boliviana. Dizem os potosinos que seria possível construir uma ponte com toda prata explorada indo de Potosí a Madrid e outra de ossos e restos humanos voltando de Madrid a Potosí.