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O lado lusitano da história de Bauru

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 5 min

Parte significativa da história de Bauru é resultado do trabalho árduo de milhares de varões (e varoas) assinalados que, de alguma ocidental praia lusitana, partiram por mares nunca antes navegados para edificar um novo “reino” entre gente remota.

As marcas da imigração portuguesa se manifestam das mais variadas formas em Bauru - nas praças, nas ruas, nas igrejas, nos esportes e principalmente nas pessoas. Jardim Estoril, Praça Portugal, Santuário de Nossa Senhora de Fátima, Associação Luso Brasileira, Hospital Beneficência Portuguesa são alguns traços dessa união Bauru-Portugal.

Os primeiros portugueses chegaram a Bauru no começo do século 20 para se dedicar à lavoura e, sobretudo, ao comércio. A partir de 1905, com o início das obras da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB), intensificou-se a presença dos lusos na cidade.

Importantes estabelecimentos surgiram na rua Batista de Carvalho e nas imediações da Estação da NOB, como a Dias Martins e a Casa Luzitana (originalmente, o nome da loja era gravado com “z”).

Aliás, o português Antônio Garcia, proprietário da Casa Luzitana, foi o responsável pela fundação do Luzitana Futebol Clube, que mais tarde mudaria o nome para Bauru Atlético Clube (BAC) e se tornaria o principal rival do Noroeste. Foi nessa agremiação com DNA “luzitano” que Edson Arantes do Nascimento - ou simplesmente Pelé, o “Atleta do Século” - pôde mostrar ao mundo, pela primeira vez, seus lances geniais.

Como não poderia deixar de ser, os portugueses também deram importante contribuição à culinária da Bauru da primeira metade do século 20, com as padarias União do Brasil, na Vila Falcão, e Central (localizada, obviamente, no Centro).

Alguém poderia dizer que o maior legado dos lusos à cidade tenha sido o Hospital Beneficência Portuguesa, fundado por um grupo liderado pelo imigrante Antônio Baptista no ano de 1914 (leia mais no texto ao lado). Mas o delegado aposentado Abel Fernando Marques Abreu, um dos grandes divulgadores da cultura lusófona em Bauru, tem opinião um pouco distinta.

“Atualmente, pelo menos 1,2 milhão de portugueses residem no Brasil, ajudando a edificar este País com seus braços fortes e sua tenacidade perseverante, numa demonstração insofismável e inequívoca da pujança e do destemor lusitanos”, frisa Abel, fã incondicional dos versos de Luís Vaz de Camões, o maior poeta da língua portuguesa em todos os tempos.

Os seus primeiros biógrafos contam que, em seus últimos dias, o aedo que invocava as Tágides vivia em um estado de penúria tão profundo que não tinha sequer um lençol para lhe servir de mortalha - sinal de que as deidades do rio Tejo não se deixaram comover pelos versos que o poeta lhes dedicou. Hoje, todavia, mais de quatro séculos depois de sua morte, o autor de “Os Lusíadas” tornou-se uma espécie de personificação de nosso idioma, que por sua vez, passou a ser conhecido mundo afora como a “Língua de Camões”.

No último dia 10, foi comemorado o 429.º ano da morte (se é que é possível comemorar-se a morte de alguém) de seu poeta maior. Portugueses ao redor do mundo aproveitaram para celebrar suas raízes, seu passado e seus símbolos.

As origens da comemoração remontam a 1910, ano em que foi proclamada a república em Portugal. Um decreto de 12 de julho daquele ano permitiu aos concelhos (embora possa parecer estranho aos brasileiros, a palavra é grafada com “c” e quer dizer o mesmo que municípios) determinarem um dia do ano que representasse sua história e suas tradições.

Os republicanos de Lisboa resolveram reverenciar um poeta que personificava a pátria em seu momento de maior esplendor (a expansão ultramarina). A partir de 1933, com o Estado Novo de Antônio Oliveira Salazar, a data passou a ser particularmente exaltada em todo o país, sendo conhecida oficialmente como o “Dia da Raça. Em 1978, com a volta da democracia a Portugal, o feriado foi rebatizado de “Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”, nome que permanece até os dias atuais.

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A jóia da colônia

Fundada no ano de 1914, o Hospital Beneficência Portuguesa passou por sérias dificuldades no começo da década, em decorrência de dívidas e problemas administrativos. Esteve a ponto de fechar as portas. Graças, porém, à dedicação de um grupo de médicos, a entidade conseguiu sair da “UTI”.

“Os procedimentos estavam ficando caros demais e as tabelas dos planos de saúde não contemplavam nossos gastos”, explica o oftalmologista Raul Gonçalves de Paula, um dos médicos que assumiram a gestão do hospital por meio de uma empresa chamada Benemed.

Se, atualmente, a Beneficência não tem lucros, também já não opera no vermelho. “Estamos, por assim, dizer, no 0 a 0. Todo o dinheiro que entra é reinvestido no próprio hospital”, salienta ele.

Nos últimos tempos, a instituição tem investido nos serviços de excelência. O hospital possui, por exemplo, a única câmara hiperbárica da cidade, equipamento utilizado, entre outros, no tratamento de complicações de cirurgias, infecções graves, queimaduras e doenças vasculares.

O hospital foi fundado no ano de 1914, por iniciativa da Sociedade Beneficente Portuguesa de Bauru - que, mais tarde, daria lugar à Associação Beneficente Portuguesa de Bauru. Inicialmente, era voltado exclusivamente aos membros das colônia lusitana. Como a cidade não dispunha de uma rede de atendimento na área de saúde, a instituição passou, no decorrer dos anos, a receber pacientes das mais variadas origens étnicas.

O comendador José da Silva Martha foi o dirigente que mais tempo esteve à frente da Sociedade Beneficente Portuguesa. “Todos os dias, pela manhã, ele costumava passar nos quartos para conversar com os pacientes, saber como eles estavam e se vinham sendo bem tratados”, garante o delegado aposentado Abel Fernando Marques Abreu.

Filho de português (Antônio Gonçalves de Paula, 72 anos), Raul Gonçalves de Paula sente-se satisfeito pelo fato de ter ajudado a evitar o fechamento do hospital. “Com a Beneficência sobrevivendo, Bauru irá crescer”, acredita o médico, que no dia-a-dia, demonstra ser um grande entusiasta da cultura portuguesa.

“Tempos atrás, fui a Portugal visitar uns parentes. Lá, aprendi com meus primos a fabricar vinho em casa”, garante Raul Gonçalves de Paula, que nasceu na Beneficência Portuguesa, em 3 de setembro de 1971.

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