Nascida aqui em Bauru , tive uma infância pobre, mas muito boa; subia nos pés de manga da avenida das Mangueiras, aprendi a mergulhar no rio Tirintan, roubava jaboticabas nas chácaras, que não eram cercadas, na Vila Serrão. Viajava até Guaianás, numa aventura de trem em que eu ia na janela, para poder ver a paisagem que passava devagar, sem contar que o trem tinha alguns pontos de parada (não me lembro quais eram), a demora da viagem a deixava mais emocionante, parece que era uma eternidade, chegávamos em Guaianás, eu, minhas irmãs e meus pais, e ficávamos impressionados como a cidade era pequena, parada. Bauru se comparada a ela era pra mim uma cidade grande. Em Guaianás, brincávamos no rio, comíamos galinha criada no quintal e ouvíamos o sino da igreja bater a cada hora, diferente de Bauru, que na época nos orientava nas horas pelo apito da Sanbra.
Parece que já tenho cem anos, mas só tenho 45, e as coisas mudaram tão rápidas que me assusto algumas vezes. A avenida das Mangueiras, hoje avenida Comendador da Silva Martha, está em obras, mas percebi que deixaram uma última mangueira, fiquei tão feliz, porque todo o resto de minha infância foi transformado, o rio Tirintan agora é um fio de água, as chácaras, além de terem cercas, não vejo mais as jabuticabas brilhando ao sol, o trem não existe mais..... . E a nossa Ferroviária, quem não a viu funcionando não consegue imaginar como ela foi importante um dia!
Se fico uma semana sem passar na avenida Comendador vejo construções novas, casas que estavam em pé até há uma semana já não existem mais, dando lugar a escritórios, clínicas, locadoras, obras e mais obras, homens trabalhando, concreto sendo feito, carros, muitos carros passando. Quando na minha infância poderia imaginar que meu mundo se transformaria tanto, e com tanta rapidez... Fico feliz em ver Bauru progredindo, mas confesso que sinto saudades. Estudei do 1º ao 8ª ano no Sesi, na Rubens Arruda. Naquela época tínhamos só o viaduto da Vila Falcão, me lembro da construção do viaduto "novo" da Duque.. Algumas casas foram desapropriadas e naquela época, para mim, aquilo já era uma construção audaciosa. Lembro que assim que foi inaugurado, tinha medo de andar sobre ele, confiava mais no viaduto velho, ele era mais antigo... Agora, o viaduto que era novo já é antigo. Como a vida, as coisas, as pessoas ao nosso redor, mudam, desaparecem para dar espaço a construções novas, pensamentos novos, pessoas novas, porém preocupa-me se nessa rapidez de transformar nós, humanos, esqueçamos de nossa história, de nossos valores, de nossa própria identidade e deixemos de ser nós mesmos. Devemos nos adequar, sim! Transformar-nos, viver.. Mas nossos alicerces devem ser preservados junto aos nossos valores, nosso olhar deve acompanhar a multidão, ver o novo, mas respeitando o antigo. Estamos vendo quais serão os efeitos dos descartáveis em nosso meio ambiente, devemos ter cuidado para não nos tornarmos como eles.
Élida Marques Yonamine - jornalista e historiadora