Teerã - Centenas de protestos aconteceram ontem no Irã, após o Conselho Eleitoral divulgar a vitória do presidente Mahmoud Ahmadinejad, com 62,7% dos votos. Ele derrotou o reformista moderado Mir Hossein Mousavi, que teve 33,7% dos votos. O opositor disse que houve “irregularidades em massa” e pediu a anulação das eleições.
Os comitês dos candidatos reformistas, Mousavi e Mehdi Karroubi, amanheceram cercados por paramilitares. Nas últimas semanas, a grave crise econômica, um racha inédito na liderança islâmica e uma bem-sucedida campanha entre jovens e mulheres tinham tirado o favoritismo de Ahmadinejad.
Várias medidas de segurança foram implementadas. Estão proibidos comícios e reuniões públicas até segunda ordem. As universidades iranianas foram fechadas por ordem ministerial e provas marcadas no fim de semana, em temporada de exame, foram adiadas.
O serviço de mensagens enviadas por celulares foi suspenso ontem e funcionou precariamente ao longo do sábado, assim como a telefonia celular. Várias cidades iranianas ficaram sem Internet. Dois sites da campanha de Mousavi, incluído o do jornal “Palavra Verde”, seu boletim de notícias, estavam bloqueados na manhã de ontem.
A TV estatal não pára de exibir mensagens pedindo “calma e aceitação dos resultados” e são exibidas imagens de líderes reformistas pedindo “calma” - ainda que esses depoimentos tenham sido gravados na semana passada, em outro contexto. O Ministério da Cultura anunciou que não renovará os vistos de jornalistas estrangeiros, que são concedidos por até uma semana. Acredita-se que já na quarta-feira não haverá imprensa estrangeira em Teerã.
Marchas espontâneas, reunindo de 50 a 10 mil pessoas, aconteceram pela capital ao longo do dia de ontem, cantando “Roubo, roubo, roubo” ou “Ditador, bye, bye, ditador, bye, bye”. A maioria delas terminou com manifestantes ensanguentados ou detidos. Militares, paramilitares e a temida milícia dos basijis, os “vigilantes da revolução” estavam espalhados por toda a cidade.
A avenida Fatemi, onde fica o Ministério do Interior, que divulgou os resultados, foi fechada por diversos quarteirões tanto para carros, como para pedestres. Estes apanhavam de cassetetes da polícia se tentassem atravessar a rua.
Um repórter brasileiro foi agredido a cassetetes por um policial, enquanto se protegia em uma marquise da multidão que corria - e se derrubava - fugindo da repressão na avenida Fatemi. Diversos fotógrafos ficaram sangrando - eram os maiores alvos da polícia. Houve protestos também em outras partes do país.
A grande interrogação é como vão se comportar as dezenas de milhares de jovens que tomaram as ruas de Teerã nas últimas três semanas, fazendo uma campanha festiva para Mousavi - o clima de pretensa liberdade e democracia que marcou a campanha se dissipou rapidamente.
Na quarta-feira, o chefe político da Guarda Revolucionária disse que qualquer “revolução de veludo” seria reprimida exemplarmente - em referência à revolta popular e estudantil que derrubou o comunismo na antiga Tchecoslováquia.
Ahmadinejad, que não havia falado até a noite de ontem, deve fazer um comício na praça Azadi (“liberdade”) na manhã de hoje.
Mousavi cancelou duas entrevistas coletivas e ainda continuava em reuniões fechadas no Ministério do Interior. Seu comitê divulgou mensagem em que ele diz que não se “renderá a esta perigosa charada”. “Os pilares da República Islâmica estão em risco por algumas autoridades que querem estabelecer uma tirania”, disse.