Bairros

Situação é pior nas favelas da cidade

Wagner Carvalho
| Tempo de leitura: 5 min

Se o inverno é um convite para dormir mais para grande parte da população, para as famílias mais carentes as noites frias da estação são as mais complicadas. A maior parte dos barracos feitos de madeira, existentes nas mais de 20 favelas na cidade, tem inúmeras frestas por onde o ar frio entra e faz com que a sensação de frio dentro da casa seja a mesma se a família estivesse dormindo fora dela.

O barraco erguido por Cilene Barbosa e o marido José Pedro da Cruz, moradores da favela do Ferradura Mirim - onde existem mais de 700 barracos - é um bom exemplo dessa situação. Com apenas dois cobertores velhos para se proteger do frio, o casal usa um deles para garantir o aquecimento dos dois filhos, que dormem juntos na mesma cama, e o outro fica para o casal.

As dezenas de frestas existentes na estrutura do barraco por onde entra o ar frio do inverno, praticamente neutraliza a proteção dos cobertores. “A gente fica em torno fogão de lenha que fica na cozinha até a hora de dormir, e deixa as brasas acesas para rebater o frio dentro de casa”, conta Cruz.

Ele e a esposa estão aguardando a chegada dos agasalhos da campanha realizada pela Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes). “Pelo menos para as crianças. A gente já é adulto e suporta mais, já eles não entendem a falta (de agasalhos)”, conta a mãe.

Na mesma favela, Silvanira Maciel e o marido José Nicolau vivem um situação ainda mais complicada. O barraco onde os dois viviam simplesmente veio abaixo e o dois estão morando em um barraco de alvenaria que ainda está sendo construído pela filha. O problema é que essa construção ainda só tem as paredes e não tem a cobertura. Eles improvisaram e cobriram o local com uma velha lona, e estão tendo que dormir no chão.

“A Defesa Civil veio até aqui e disse que iria ajudar a gente a reconstruir a casa, mas até agora mandou apenas algumas madeiras que na verdade não se pode fazer nada” reclama Maciel. Sem teto e sem agasalho, marido e mulher esquentam a água do banho num fogão de lenha improvisado no quintal e, para não dormir direto no concreto, usam alguns panos para forrar o chão.

Na favela do Jardim Nicéia, a situação não é diferente da encontrada em outros lugares. A família de Maria de Lourdes da Silva, que reside no local há 40 anos, além de passar dificuldades também reclama do descaso do município com os moradores do local. A família encontrou uma solução para combater o frio dentro de casa. Restos de carpetes abandonados servem para forrar todo o piso, tanto da cozinha quanto do quarto onde dormem ela, o marido e dois filhos.

“O problema maior aqui é a falta de energia elétrica. Apenas um relógio abastece cinco casas, por isso, se ligar um chuveiro elétrico em um dos barracos, dá sobrecarga e desliga tudo”, conta. Com isso, os moradores saem todos os dias à tarde para recolher madeira e acender o fogão de lenha. Silva conta que, para dar banho nos netos, a solução é água quente em um balde e caneca.

Denise Cristina Ferraz Batista, que também reside em uma favela num barraco de três cômodos feito metade de madeira e outra metade de alvenaria, aguarda a chegada de agasalhos para fugir do frio este ano. De acordo com ela, as igrejas e entidades assistenciais são as que mais fazem doação para a família.

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Alternativa

Apesar de residir em um barraco simples de três cômodos, sendo que um quarto é feito de alvenaria e o restante erguido com restos de madeira na favela do Ferradura Mirim, Denise Cristina Ferreira Batista teve uma idéia criativa, e com a chegada do frio consegue ganhar dinheiro.

A moradora prepara todos os dias chocolate quente e vende para os moradores vizinhos. Ela conta que com as constantes quedas da temperatura nas últimas semanas já conseguiu ganhar um bom dinheiro. “A gente vende o copo de chocolate quente por R$ 1,50 cada e muita gente já acostumou a vir comprar aqui em casa”, conta. De acordo com ela, o dinheiro arrecadado com a venda da bebida ajuda bastante nas compras da casa, onde além dela, vivem os quatro filhos, dois sobrinhos e o pai.

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Tecnologia

Até mesmo na maior e mais carente favela de Bauru, o Ferradura Mirim, é possível encontrar famílias que, apesar de residirem em barracos feitos de madeira, não abrem mão de possuir aparelhos eletrônicos e até TV por assinatura.

Aparelhos de TV, som e telefone estão presentes em quase todos os barracos nas favelas da cidade. Veículos que pertencem aos moradores também circulam pelas estradas de terra e até por vielas que dividem o local. Mas uma antena de TV por assinatura chamou a atenção da reportagem do JC nos Bairros.

O barraco, que não difere dos outros erguidos naquela comunidade, feito de madeira e simples, nos leva a crer que pessoas carentes residam ali, mas a existência da antena de canal por assinatura - que normalmente está presente em bairros de classe média e alta - nos faz rever a primeira impressão.

A casa que possui o chão batido com piso, possui ainda outras tecnologias como o telefone e o aparelho de som. A dona da casa, que não será identificada nesta matéria, conta que mora no local há quatro meses. Ela não comentou a existência da antena, mas mostrou o quanto o marido, o filho e ela vivem de modo precário no local.

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