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Reter receita de antibiótico gera polêmica

Lígia Ligabue
| Tempo de leitura: 6 min

Oficialmente, os antibióticos são remédios que só podem ser vendidos pelas farmácias se o paciente apresentar a receita de um médico. Porém, é muito comum o cliente dispensar uma consulta, seguir orientações de familiares, vizinhos e amigos e solicitar o medicamento diretamente nas drogarias. Para coibir a automedicação e prevenir a evolução da resistência das bactérias a esses remédios, conselhos da área de saúde e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) estudam incluir os antibióticos na lista de medicamentos controlados. Especialistas concordam que é necessário regulamentar a venda, mas também é preciso investir no acesso a médicos.

Preocupado com o uso inadequado de antibióticos e o aumento da resistência bacteriana, o Conselho Regional de Farmácia de São Paulo (CRF-SP) promove uma reunião hoje que discutirá uma ação conjunta para combater o problema. Participarão do encontro representantes de vários segmentos da Saúde e a Anvisa.

Uma pesquisa do conselho, feita em 2008 com mais de 2,7 mil estabelecimentos, revelou que 68% deles vendem antibióticos sem receita. Mas, apesar de ainda ser embrionária, a proposta de incluir os antibióticos na lista de medicamentos controlados - aqueles que a receita só pode ser usada uma vez e os dados são transmitidos à Vigilância Sanitária - gera polêmica.

À imprensa nacional, o diretor-presidente da Anvisa, Dirceu Raposo de Mello, avaliou que a sugestão ainda deve ser esmiuçada. “Vamos discutir como viabilizar essa proposta, mas ainda não sabemos quando será implementada”, diz. A assessoria de comunicação da agência destaca que a idéia é inicial e a intenção do dirigente é colocá-la em discussão.

Especialistas ouvidos pelo Jornal da Cidade ponderam que os antibióticos são medicamentos que necessitam de um acompanhamento mais rigoroso. Mas avaliam que a desigualdade social do País e a dificuldade de atendimento, principalmente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), colaboram para a automedicação.

Rui Pagano Júnior, proprietário de uma rede de drogarias de Bauru, opina que a proposta deve ser avaliada em dois planos. “Num aspecto científico, o controle é válido porque há sim uso indiscriminado de antibióticos, que pode gerar resistência de bactérias por parte do usuário”, observa. “Mas do ponto de vista social é mais difícil. O Brasil é um país que não possui uma rede estruturada de assistência em saúde capaz de atender a grande demanda da população, para que todos tenham acesso aos antibióticos de forma adequada”, ressalta.

Ele avalia que, apesar de condenável, a automedicação acaba até desafogando os prontos-socorros. “Quando o cidadão sabe o que tem de errado com ele, compra o remédio que usou a vida toda. Se essa venda for restringida, será que ele vai conseguir passar por um atendimento médico para receber a prescrição?”, questiona.

Pagano Júnior ainda compara os antibióticos aos outros medicamentos de uso controlado, como os psicotrópicos. “Quando uma pessoa usa um remédio controlado já programa sua vida para isso. Geralmente é um medicamento de uso contínuo. Já os antibióticos são remédios de uso repentino”, pondera. “Mas se vier a determinação, que eu acho correta, teremos que cumprir”

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Consulta

Sem informar o nome, o farmacêutico responsável por uma drogaria em Bauru informou à reportagem que costuma vender inúmeros antibióticos diariamente. No inverno, a procura aumenta, pois a incidência de inflamações de garganta, ouvido e aparelho respiratório também se eleva. Porém, segundo ele, 30% dos usuários não têm receita.

A relações públicas Keila Grassi considera arriscado comprar antibiótico por conta própria. “Eu não tenho o conhecimento necessário para saber qual o medicamento é mais adequado. Costumo seguir conselhos sobre remédio se for algum analgésico. Mas se for antibiótico, não arrisco”, afirma.

A atendente Solange Meneguella concorda com a iniciativa da Anvisa e Conselho Regional de Farmácia (CRF) para controlar a venda desse tipo de remédio. “Antibiótico é uma coisa muito séria, não dá para ficar tomando sem ser receitado. Principalmente se quem for usar for criança. Acho que os riscos são ainda maiores”, diz.

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Conselhos concordam, mas divergem na aplicação

Representantes do Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) e da Seccional Bauru do Conselho Regional de Farmácia de São Paulo (CRF-SP) concordam que a proposta de aumentar o controle à venda de antibióticos é necessária. Porém, enquanto o conselheiro do Cremesp, Carlos Alberto Monte Gobbo, avalia que a dificuldade de acesso da população o médico pode inviabilizar a idéia, o diretor regional do CRF, Fábio Henrique Valentim, destaca que a proposta tem caráter urgente e será acompanhada de projetos de conscientização.

“Ela é viável, pois controla a prática de pessoas comprar remédios por sugestão de parentes e amigos. O paciente usa um antibiótico e vê que não dá certo. Ele resolve experimentar outro e mais um. Dessa maneira, a bactéria causadora da doença vai ficando cada vez mais forte. Então, um antibiótico de última geração não será mais capaz de acabar com a doença”, avalia.

Para ele, muita gente já tem consciência dos riscos do uso incorreto de remédios. “Toda mudança e novidade traz efeitos prós e contras. Mas as pessoas preocupadas com a saúde irão concordar”, diz.

Outro aspecto perigoso do uso incorreto de antibióticos é não seguir o tratamento até o fim. Muitas pessoas deixam de tomar o remédio assim que os sintomas da doença desaparecem. Dessa forma, a bactéria não é eliminada totalmente e as remanescentes podem se tornar imunes ao remédio. “O brasileiro costuma culpar políticos, o SUS, mas, muitas vezes, mesmo passando pelo médico, ele não faz o tratamento até o fim”.

Ele concorda com a crítica de que o País ainda não tem estrutura adequada de acesso à saúde. “Mas aí entra o trabalho de conscientização e o investimento em outros setores. O assunto é polêmico e deve ser bastante discutido. Mas nossa batalha é combater agora um problema que pode se agravar no futuro”.

Gobbo defende a restrição ao uso indiscriminado de antibióticos. “Acredito que todas as medidas que venham melhorar o controle de prescrição de medicamentos são responsáveis”, destaca. Porém, para ele, a dificuldade da população em conseguir uma consulta médica torna a proposta inviável. “É preciso antes garantir a acessibilidade a um médico”, destaca.

“Penso nas pessoas que vivem em lugares onde não há médicos. Nessas condições fica difícil não precisar da opinião de um farmacêutico. Sou contra esse tipo de prática, mas não podemos tapar o sol com a peneira”, observa Gobbo. Ele pondera que caso a proposta seja aceita, muitas farmácias irão se deparar com a situação extremas. “Entre o uso indiscriminado ou a morte por infecção, o que devemos escolher?”, questiona.

Ele apresenta algumas sugestões para incentivar o consumo responsável de antibióticos, como a iniciativa norte-americana de vender remédios com a quantidade correspondente ao tratamento. “Aqui, vendem-se caixas com um certo número de comprimidos. Porém, alguns acabam sobrando e, se a pessoa volta a adoecer, acaba ingerindo essas cápsulas”.

Para ele, o controle deveria vir acompanhado de outras ações. “Além de restringir, deveria haver investimento para promover o acesso à prescrição de forma responsável”, afirma.

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