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Invento só deslancha com investimento

Lígia Ligabue
| Tempo de leitura: 5 min

Há cinco anos, o empresário Maurílio Fábio de Camargo, 48 anos, inventou um produto capaz de deixar cozinheiros profissionais de queixo caído. Uma mistura que engrossa qualquer caldo e molho em poucos minutos, sem alterar o sabor do alimento. Mas, sem apoio para produzir o produto em escala industrial, Camargo terá que investir ainda mais para ver seu invento nas prateleiras. Para Associação Nacional dos Inventores (ANI), como Camargo, há muitas pessoas que possuem boas idéias, mas não conseguem comercializá-las.

A idéia de Camargo começou a partir de seu prato favorito: o feijão. Antes de ser inventor e empresário - ele é dono de uma prestadora de serviços em limpeza -, Camargo era vendedor e viajava muito a negócios. “Sempre participávamos de festas e eventos, almoços, jantares e sempre reparava que mesmo em bons restaurantes, o feijão tinha um caldo ralo. Então, comecei a pensar numa maneira rápida de engrossar esse caldo.”

Depois de pesquisar ingredientes, testar fórmulas e cozinhar muito, Camargo chegou ao “Caldo Grosso”, nome que batizou o invento, uma mistura em pó que deixa os molhos mais espessos. “E sem alterar o sabor, porque o melhor do feijão é o tempero que cada um dá”, destaca. Aliás, ele afirma que o produto ressalta o sabor do alimento.

Assim que chegou à fórmula definitiva, Camargo procurou a ANI e registrou a patente. Agora, a associação e ele buscam parceiros para produzir comercialmente o “Caldo Grosso”.

Hoje, seu maior sonho é ver seu produto empregado em merendas das escolas públicas, em refeições hospitalares e nos lares do País. “Além de deixar caldos e molhos mais grossos, ele também é light, feito com aveia. Só leva ingredientes naturais e já testei em sopas, estrogonofe, dobradinha... No caldo de mocotó, ele aumenta até 30% do volume sem alterar o sabor”, afirma.

Mas parece que o objetivo vai demorar mais que o esperado. “Como não consegui empresas para adquirir a patente, quero produzi-lo para torná-lo conhecido do público. E, depois, tentarei negociá-lo”, observa.

Para viabilizar o negócio, ele freqüentou curso no Serviço de Apoio às Micros e Pequenas Empresas (Sebrae) e, seguindo as orientações da entidade, fez uma pesquisa de mercado para avaliar as chances do negócio dar certo. “Além de verificar que tem espaço, testamos em restaurantes e vimos que a aceitação foi de 100%”, diz.

Porém, mesmo essa saída não está tão fácil assim. Sem possuir patrimônio para garantia, ele não consegue financiamento para adquirir os equipamentos necessários para produção em escala comercial. “Já tenho o local adequado, licenciamento da Cetesb (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental). Tentei o empréstimo, mas não consegui”, diz, referindo-se à linha de crédito especial destinada à micro e pequenas empresas.

Nesses cinco anos, ele calcula ter investido R$ 12 mil no invento, entre registro de patente no Instituto Nacional de Propriedade industrial (Inpi), taxas de licenças e viagens para divulgar o produto na Capital. “Já vendi um carro para levantar o negócio. Mas estou confiante que dará resultado”, diz.

Burocracia

O empresário bauruense José Luiz Woelke patenteou a marca de álcool sólido de sua empresa no Inpi. Esse registro vale por 10 anos. Para tanto, contratou uma empresa prestadora de serviços para facilitar os trâmites e enfrentar a burocracia do instituto.

Porém, no ano passado, teve que renovar o registro. Ele procurou a mesma empresa e se assustou com o valor pedido. “Eles me pediram mais de R$ 900,00. Resolvi entrar no site do Inpi e descobri que a taxa pedida era de R$ 180,00”, diz. Ele mesmo efetuou o processo e não desembolsou mais do que R$ 195,00, entre taxa e postagens nos Correios.

“Um dos problemas do Inpi é que falta acesso à informação e transparência”, critica. Ele observa que, como a sede do instituto fica no Rio de Janeiro, o órgão mantém representantes em outras regiões. “Na verdade, eles são como despachantes, que cobram taxas para fazer o serviço. Mas você mesmo pode fazer por telefone, fax ou e-mail”, diz.

Além disso, ele aconselha os inventores a tomarem cuidado. De acordo com o empresário, algumas firmas se dizem representantes do Inpi, mas acabam pegando o dinheiro da pessoa e não efetuam o registro. “O risco de se pegar uma empresa não idônea, os altos custos e a falta de informação acabam inibindo muita gente a registrar sua idéia ou marca”, avalia.

• Serviço

Diretoria de Patentes do Instituto Nacional da Propriedade Industrial: (21) 2139-3797, (21) 2139-3679, (21) 2139-3638, (21) 2139-3662, (21) 2139-3314, (21) 2139-3601. O correio eletrônico é patente@inpi.gov.br. Associação Nacional dos Inventores (ANI): (11) 3873-3211 ou pelo correio eletrônico presidente@ inventores.com.br.

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Entidade faz ponte com empresários

Há 23 anos, a Associação Nacional de Inventores (ANI) é uma entidade que tem como objetivo auxiliar os inventores brasileiros a patentear suas criações e também aproximar empresas que desejam investir em novas idéias. “Já fizemos mais de 9 mil patentes e colocamos mais de 300 produtos no mercado”, ressalta Carlos Mazzei, fundador e presidente da ANI.

Para ele, os inventores devem vender ou licenciar suas criações. “Eu não aconselho um inventor a produzir em escala seu produto. Muitas vezes, ele não tem a capacitação comercial para isso. É melhor ele investir na criação e desenvolvimento de outras idéias”, diz.

Mazzei também destaca a importância de patentear a invenção. “As normas do INPI são claras. O inventor é aquele que registra o produto primeiro. Tem gente que cria algo e fica anos sem patenteá-lo. Quando procura o instituto, vê que alguém registrou primeiro. Aí fica difícil questionar”, enfatiza.

Outra dica de Mazzei é a profissionalização do projeto para atrair as empresas. “Quem não tem conhecimento técnico para isso, pode procurar auxílio da ANI. Se o produto for bom, a chance é muito grande dele ir para o mercado”, avalia.

De acordo com a página da ANI na Internet, dados da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), apontam que em 2007, das 156 mil patentes do mundo, apenas 384 foram apresentadas pelo Brasil. Ainda assim, foi 15% a mais em relação ao ano anterior. O País ocupa o 24.º lugar no ranking mundial liderado pelos Estados Unidos, que tiveram 52,2 mil patentes em 2007, ou seja, 33,5% do total mundial.

Para Mazzei, o baixo número de inventos registrados no Brasil se deve à falta de divulgação do próprio Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). “A falta de informação é muito grande. Se o governo federal fizesse campanha publicitária sobre o instituto, as pessoas saberiam que é necessário registrar seus inventos”, diz.

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