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Quem tem culpa?

Luiz Fernando Ribeiro
| Tempo de leitura: 4 min

Impressionou-me a reportagem sobre saúde, especialmente no aspecto da área pública, editada no domingo, dia 12 de julho. Porém, é importante ressaltar que não foram apresentadas as causas mais profundas das falhas que o sistema apresenta. Antes de mais nada é importante afirmar, ou mesmo reafirmar, ser o Sistema Único de Saúde (SUS) um exemplo em prestação de serviços à saúde, reconhecido no mundo todo. Mesmo com muito ainda a fazer deve haver quem se lembre de como tudo funcionava antes, com o discriminatório “ambulatório e enfermaria de indigentes” oferecido quase com exclusividade pelas Santas Casas que nada recebiam por atendimentos dessa natureza, a não ser manter sua condição de isenções concedidas por filantropia. Médicos lá trabalhavam voluntariamente. Praticavam a humanização falada na reportagem citada. Dedicavam-se a realizar exames clínicos, buscando diagnósticos precisos e conclusivos. E a resolutividade era alta, traduzida nos muitos agradecimentos comovidos.

Somente trabalhadores com carteira assinada conseguiam acessar um sistema melhor. A única outra alternativa era o desembolso direto ao profissional da saúde. O SUS, antes SUDS (Sistema Unificado e Descentralizado de Saúde), surgiu a partir da nova Constituição Federal, promulgada na redemocratização do país após a ditadura militar. Quem não se lembra de Ulysses Guimarães nesse momento?

Anterior a isso, os militares haviam sucateado o ensino público brasileiro enquanto no poder. Além de achatar vergonhosamente o salário docente, instituíram uma política de abertura indiscriminada de escolas universitárias, sem preocupação alguma quanto à qualidade do ensino, centros de treinamento, e, em se falando de medicina, hospitais específicos. Queriam números e obtiveram sucesso. Mas, sem a necessária montagem de infraestrutura a qualidade dos formandos teria de cair. E isso aconteceu. Saturou-se o mercado de trabalho com profissionais não totalmente preparados, não por sua culpa, mas por seu desejo de progredir intelectualmente. E, lógico, melhorar seu padrão de vida. Mas saturação de mercado significa menor salário e necessidade de número aumentado de vínculos, com duplas ou triplas jornadas de trabalho, gerando desgaste fisco e emocional, com repercussão direta na resolutividade. E na humanização decantada.

Particularizando-se para a área médica, esse quadro foi arrasador. Pediatras, clínicos gerais, obstetras-ginecologistas e cirurgiões gerais sempre constituíram os pilares mestres da arte de curar, com preparo para, após residência e aperfeiçoamento, poderem resolver até 75% das demandas, com conseqüente menor encaminhamento a especialidades e menor demanda nestas. Mesmo estando em outra época, onde as complexidades da saúde aumentaram, por força de novos diagnósticos e novas descobertas, este percentual não se alterou tanto. Continua valendo a questão da resolutividade naquelas quatro áreas.

E, embora agora entre no terreno da especulação, não vejo escolas médicas com política de investimento para formar profissionais com o preparo necessário, sobretudo nas responsáveis por um grande atendimento e uma grande resolutividade. Elas mesmo estão estimulando a super-especialidade. Sabe-se tratar a diarréia, mas não a otite média. Sabe-se realizar um parto, mas não a investigação de uma possível infertilidade. Sabe-se tratar uma pneumonia simples, mas não uma pouco mais complicada. Uma apendicectomia necessita de um cirurgião gástrico. Persistindo esse quadro as filas nunca acabarão, embora caiba uma pergunta: haverá algum sistema de saúde, em algum lugar do mundo, onde ela não exista? Mesmo em planos de saúde é ausente? Consciente ou inconscientemente, a população captou muito desses problemas. Prefere, sempre que há condições, o atendimento pelo super-especialista, vinculando um possível problema a determinada patologia desconfiada ou sugerida por outros. E nem sempre essa hipótese é a correta. O médico da especialidade básica, bem formado, daria resposta muito mais adequada.

Para concluir, não hesito em afirmar ser a política vigente para a área da saúde vigente a partir de 1964 e não revertida como deveria ser, a grande culpada por problemas médicos hoje encontrados. Estes são conseqüências, aquela é a causa maior. Isso não pode impedir estudos salariais adequados, valorização de carreiras médicas básicas, estímulos bem definidos quanto a políticas de formação universitária, condições de trabalho bem estabelecidas, antes de imputar culpa em maior ou menor grau ao médico. Se isso começar a acontecer e com rapidez possível, o SUS será quase perfeito. Quase, pois perfeito só Deus.

O autor, Luiz Fernando Ribeiro, é médico, ex-secretário da Saúde de Bauru e ex-diretor regional do SUS

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